Do Consumo à Produção de Conhecimento
Primeiramente, é fundamental compreender a transição que está em curso. Durante décadas, uma corrente de pensamento defendia que o Brasil, como grande produtor de commodities, deveria se concentrar nesse setor e adquirir tecnologia de ponta no exterior quando necessário. No entanto, essa visão está sendo contestada por uma estratégia que prioriza a soberania tecnológica. Conforme destacado por Hugo Valadares, diretor do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), a posição atual do governo é de participação ativa.
“A gente entra nesse jogo pra disputar onde nos cabe”, afirmou Valadares, em referência ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA).
Hugo Valadares, Diretor do MCTI
Investimentos que Equiparam o Brasil a Potências Europeias
Além disso, os recursos alocados demonstram uma ambição à altura do desafio. O diretor do MCTI comparou os investimentos do PBIA aos realizados por nações como França e Alemanha, revelando que os aportes brasileiros já alcançaram patamares internacionais. Essa é uma conquista significativa, considerando as limitações econômicas enfrentadas pelo país. A mensagem é clara: o Brasil, como a décima maior economia do mundo, possui o dever e o potencial de contribuir para a fronteira do conhecimento.
Pilar Central: Fortalecimento do ecossistema nacional de inovação.
O Ecossistema Nacional Como Vantagem Competitiva
Por outro lado, nenhum plano de tecnologia avança sem capital humano qualificado. Neste aspecto, o Brasil possui um trunfo considerável. O país conta com um ecossistema robusto de formação de pessoas, incluindo universidades de excelência e programas de pós-graduação reconhecidos internacionalmente. A geração contínua de mestres e doutores é a base sobre a qual a inovação de longo prazo será construída. Valadares ressalta que a inovação é um processo:
“Isso demanda toda uma cadeia de formação de pessoas, de investimento, não tem retorno financeiro a priori.”
Hugo Valadares
Os Desafios da Continuidade e do Retorno
No entanto, o caminho não está livre de obstáculos. Dois desafios centrais se destacam: a necessidade de continuidade das políticas além de ciclos governamentais e a paciência para aguardar os retornos, que são frequentemente intangíveis no curto prazo. A construção de uma cultura de inovação sólida exige persistência e visão de futuro, atributos que serão testados nos próximos anos. A pergunta que fica é se a sociedade e a iniciativa privada acompanharão esse movimento estatal.
Por Que Esta Mudança é Estratégica?
- Autonomia: Reduz a dependência de tecnologias estrangeiras em setores críticos.
- Desenvolvimento Econômico: Gera empregos de alta qualificação e agrega valor à produção nacional.
- Posicionamento Global: Garante ao Brasil um assento nas mesas onde o futuro tecnológico é desenhado.
Portanto, a decisão de participar do “jogo global da tecnologia” vai muito além de um projeto setorial. Trata-se de uma definição sobre o tipo de nação que o Brasil aspira ser nas próximas décadas: consumidor ou criador, seguidor ou líder. As ações atuais estão pavimentando a segunda rota, mas o trajeto completo exigirá investimento constante e fé no próprio potencial.