Venda Histórica de Títulos Americanos

Para começar, uma análise dos movimentos de reservas internacionais oferece o primeiro indício claro. Entre outubro de 2024 e outubro de 2025, o Brasil realizou a maior redução percentual mundial em sua carteira de títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Inicialmente, o montante vendido atingiu impressionantes US$ 61,3 bilhões. Este valor representa quase 27% das reservas mantidas em dólar, superando movimentos de outras grandes economias como Índia (21%) e China (menos de 10%).

Destaque: A decisão ocorreu em um período de juros elevados nos EUA, quando o valor de mercado desses títulos estava pressionado. Portanto, especialistas apontam que a motivação transcendeu a lógica puramente financeira, assumindo um caráter estratégico e político.

Baseado em dados de movimentação de reservas internacionais

O Retorno Estratégico do Ouro

Simultaneamente, os recursos obtidos com a venda dos títulos têm sido redirecionados. O metal amarelo voltou a ocupar um lugar central nas reservas de soberania. Em um intervalo de apenas três meses, o país adquiriu 43 toneladas de ouro, elevando o total das reservas para 172 toneladas. Da mesma forma, esta estratégia espelha iniciativas de outras nações, como China e Índia, indicando uma tendência coordenada entre economias emergentes e até mesmo alguns bancos centrais europeus.

Além disso, o ouro está sendo visto não apenas como uma tradicional reserva de valor contra a inflação, mas principalmente como um ativo de soberania monetária. Este movimento reduz a exposição a eventuais sanções ou congelamentos que possam afetar ativos denominados em moedas de outras nações.

Comércio Real Fora do Dólar: O Caso da Soja

No entanto, a transformação mais significativa pode estar ocorrendo no comércio exterior. O Brasil, como maior produtor e exportador mundial de soja, deu um passo crucial com seu principal cliente: a China, responsável por 60% a 66% das importações globais do grão. Parte substancial desse comércio bilionário passou a ser liquidada diretamente em moedas locais, eliminando a necessidade do dólar como intermediário.

  • Infraestrutura Operacional: Para que isso fosse possível, foi necessário estabelecer linhas de swap cambial bilateral.
  • Sistemas Alternativos: Bancos habilitados em ambos os países e sistemas de compensação fora da rede SWIFT (dominada pelo dólar) entraram em operação.
  • Confiança Política: O acordo reflete um alinhamento e uma confiança de longo prazo entre as nações.

Portanto, essa prática demonstra que a desdolarização deixou de ser uma teoria e se tornou uma realidade operacional em transações de grande volume.

As Consequências Geopolíticas e Econômicas

Esta mudança de paradigma traz implicações de longo alcance. Quando países contornam o dólar em transações comerciais, a moeda americana perde sua função de moeda de passagem obrigatória. Consequentemente, bancos americanos saem do circuito de intermediação e a demanda estrutural global por dólares tende a diminuir progressivamente.

A liquidez em dólar deixou de ser considerada neutra devido ao uso frequente de sanções, congelamentos de ativos e da aplicação extraterritorial de leis. O risco político agora pesa tanto quanto o risco financeiro nas decisões dos bancos centrais.

Em resumo, as ameaças de instabilidade política ou retaliações comerciais, em vez de frearem o movimento, têm atuado como um incentivo para a busca e consolidação de alternativas. A infraestrutura para um sistema financeiro internacional mais multipolar não só está planejada, mas já está instalada e funcionando na prática.