Os Números da Retração

Primeiramente, os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (INDEC) confirmam a tendência negativa. A atividade econômica recuou 0,3% em novembro na comparação com o mês anterior, repetindo a queda de 0,4% observada em outubro. Na comparação anual, o resultado também foi uma retração de 0,3%, ficando muito abaixo da expectativa média de crescimento de 2% projetada por analistas de mercado.

Principais Setores em Queda (Comparação Anual – Novembro):

  • Pesca
  • Indústria de Transformação
  • Comércio Varejista
Fonte: INDEC

Um Crescimento Desigual e Setorializado

Por outro lado, a contração não é uniforme em toda a economia. Enquanto setores produtivos e de consumo interno sofrem, outros segmentos apresentam expansão. Conforme os números oficiais, a agricultura, a mineração e os serviços financeiros foram os únicos a registrar crescimento no período. Este padrão alimenta análises que apontam para um processo acelerado de mudança na base produtiva do país.

Além disso, especialistas observam que este cenário reflete uma desindustrialização acelerada, com a indústria local sendo particularmente afetada. Setores como a construção civil registraram em novembro sua maior queda mensal do ano, após um movimento de aceleração pré-eleitoral. “Isso estava dentro do que esperávamos. Novembro foi um mês ruim em termos de atividade”, comentou Federico González Rouco, economista-chefe da consultoria Empiria, em Buenos Aires. “Mas também acho que isso é mais estrutural. A economia ficou estagnada o ano inteiro”, completou.

O Risco da Estagflação e o Desafio Político

No entanto, o quadro econômico preocupante não se limita à atividade fraca. A combinação com a persistência inflacionária eleva os riscos. A inflação mensal acelerou para 2,8% em dezembro, pressionada por itens essenciais como carne bovina, tarifas de transporte e energia elétrica. Para Jimena Zuniga, economista da Bloomberg Economics, esta combinação obscurece as perspectivas. “Junto com os números mais recentes de inflação, os dados de atividade sugerem que riscos de estagflação estão obscurecendo o que esperávamos ser um 2026 mais promissor”, afirmou.

Portanto, o principal desafio pode ser político. A sustentabilidade do programa econômico depende criticamente da manutenção da confiança pública e da estabilidade política. Apesar de uma vitória expressiva do partido governista nas legislativas de meio de mandato, a volatilidade pré-eleitoral teve um impacto tangível nos indicadores, com ativos financeiros despencando nas semanas que antecederam a votação.

Perspectivas e Projeções para 2026

Em resumo, o cenário atual é de incerteza e fragilidade. Nos últimos onze meses, a economia argentina contraiu em cinco ocasiões e estagnou em outras duas. As projeções oficiais para 2026, coletadas pelo Banco Central, apontam para uma desaceleração da inflação para 20,1% e um crescimento econômico de 3,5%. Entretanto, a materialização dessas expectativas depende da superação dos atuais ventos contrários, que incluem a atividade fraca, a inflação persistente e os desafios de confiança no plano de estabilização em curso.

“O principal risco é político: a possibilidade de erosão da confiança pública no governo e de questionamentos sobre a sustentabilidade política do programa.”

Jimena Zuniga, Economista da Bloomberg Economics