O Impacto Bilionário do Turismo de Verão
Para começar, os números revelam a magnitude do fenômeno. Conforme dados da Secretaria de Turismo do Estado, a temporada de verão 2024/2025 movimentou impressionantes R$ 5,8 bilhões em todo o Rio Grande do Sul. Este valor representa mais que o dobro do registrado na estação 2019/2020, antes da pandemia. Inicialmente, a temporada 2025/2026 começou com força, registrando R$ 1,7 bilhão apenas em dezembro, um crescimento de 3,9% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
Movimentação Financeira do Turismo de Verão (RS): R$ 5,8 bilhões (2024/2025)
Portanto, o verão concentra uma parte significativa da atividade econômica anual ligada ao turismo. Da mesma forma, ele responde por 38,4% da arrecadação anual de ICMS das atividades características do setor. O secretário de Turismo, Ronaldo Santini, destaca o esforço para amplificar esse efeito: “Temos trabalhado para que a temporada possa ser amplificada em todas as regiões do Estado, não somente no Litoral”.
Setores que Mais Aqueceram com a Temporada
Além disso, a análise por segmento mostra onde o dinheiro dos veranistas é aplicado. O ramo de alojamento e alimentação é o grande protagonista, concentrando R$ 4,8 bilhões da movimentação total. Sua participação no bolo turístico cresceu de 86,7% para 92,4%, demonstrando uma consolidação.
- Alojamento & Alimentação: R$ 4,8 bilhões (92,4% da movimentação).
- Serviços Turísticos: Inclui aluguel de bens, recreação e agências. Este setor apresentou o maior dinamismo, com crescimento de 38,2% na última temporada e expansão de 48% no saldo de empregos no Litoral Norte em outubro/novembro de 2025.
Por outro lado, o grupo de serviços turísticos demonstra um vigor especial, sendo responsável pela criação de milhares de postos de trabalho sazonais que preparam a região para a chegada dos visitantes.
O Boom Populacional e seus Efeitos Práticos
Inicialmente, o fenômeno mais visível é a explosão demográfica. Em Capão da Canoa, a população salta de aproximadamente 110 mil habitantes para cerca de 450 mil durante os picos de janeiro e fevereiro. Já em Torres, os cerca de 47 mil moradores fixos dão lugar a uma multidão de quase 200 mil pessoas.
Consequentemente, esse fluxo sustenta uma economia circular poderosa. A presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Litoral Norte, Ivone Ferraz, quantifica o impacto: “Nós recebemos aqui uma média diária de 500 mil, 600 mil pessoas nos nossos municípios. Isso gera cerca de 8 mil postos de trabalho no setor”. Este emprego temporário impacta uma cadeia ampla, que vai de restaurantes e hotéis a postos de combustível e lojas de material de construção.
Estratégias Empresariais: Do Interior para o Litoral
No entanto, o aquecimento não beneficia apenas negócios locais. Muitos empreendedores de outras regiões migram suas operações para surfar a onda de consumo. Renato Moreira, proprietário da loja de roupas infantis Ladies & Lords, é um exemplo. Ele transferiu uma filial de Santana do Livramento, na Fronteira Oeste, para Capão da Canoa. “Lá cai 70% e aqui aumenta os mesmos 70%”, compara, ilustrando a lógica sazonal que motiva a mudança.
Da mesma forma, Cesion Pereira, dono do Super da Praia em Capão Novo, vê seu faturamento crescer 60% entre dezembro e janeiro. Para atender a demanda, sua equipe salta de 70 para 110 funcionários durante a alta temporada. “A gente fica muito em função da questão do clima e da temperatura. Se dá um fim de semana bom, as pessoas vêm”, explica.
Desafios e a Busca por Sustentabilidade
Apesar disso, especialistas apontam que o efeito do turismo de verão é bastante localizado. Patrícia Palermo, economista-chefe da Fecomércio-RS, lembra que, para o Estado como um todo, o primeiro trimestre costuma ser fraco no comércio, devido ao fim da renda extra de fim de ano e ao pagamento de impostos.
Além disso, há uma concorrência crescente com outros destinos. Gustavo Inácio de Moraes, professor da Escola de Negócios da PUCRS, observa: “Hoje é muito fácil me deslocar para o Uruguai, para o norte de Santa Catarina. Isso é um desafio”.
Portanto, a consolidação de negócios que operam o ano todo, como o tradicional Crepe da Barra de Imbé (fundado em 1991), torna-se crucial. A empreendedora Nadia Simone Santos de Melo destaca a importância do planejamento: “Se tu não conseguires distribuir bem durante o ano o que entra durante o verão, tu vais acabar ficando no vermelho”. Em resumo, o verão gaúcho é uma força econômica poderosa e transformadora, cujo desafio permanente é converter o vigor sazonal em desenvolvimento perene.