A Concentração que Gera Vulnerabilidade

Para começar, os dados são claros sobre a dependência brasileira. Conforme informações do sistema Comexstat, em 2025, aproximadamente 30% das exportações nacionais foram para a China, enquanto outros 11% seguiram para os Estados Unidos. Portanto, 41% das vendas externas do Brasil dependem da saúde econômica e das relações políticas com essas duas nações.

Principais Produtos de Exportação do Brasil (2025):

  • Petróleo e derivados
  • Minério de ferro
  • Soja e seus subprodutos
  • Açúcar
  • Carnes (bovina, suína e de frango)
Fonte: Dados consolidados de comércio exterior

Essa dupla concentração — de produtos e de mercados — cria uma vulnerabilidade estrutural. Eventuais crises, guerras comerciais ou mudanças de política nesses países podem impactar diretamente e de forma severa a economia nacional.

O Potencial do Acordo Mercosul-União Europeia

Nesse contexto, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia surge como uma oportunidade estratégica. Inicialmente, trata-se da formação de um mercado conjunto gigantesco, com cerca de 720 milhões de consumidores e responsável por um quarto do PIB global. Estimativas do Ipea indicam que o Brasil poderia elevar seu PIB em 0,46% com a efetivação do tratado.

No entanto, é crucial entender a natureza gradual do acordo. A abertura comercial não será imediata nem total. A expectativa é de reduções progressivas de tarifas sobre 91% a 95% dos itens, em prazos que variam entre 12 e 15 anos.

Impactos Diferentes para Cada Vulnerabilidade

O acordo tende a gerar efeitos distintos para os dois problemas centrais da economia brasileira:

  1. Reprimarização da Pauta Exportadora: Este gargalo pode, paradoxalmente, se aprofundar. A experiência internacional mostra que países tendem a ampliar os ganhos justamente nos setores onde já são mais competitivos. Com a concorrência europeia, especialmente de nações como a Alemanha, a indústria nacional pode enfrentar desafios, potencialmente reforçando a exportação de commodities.
  2. Dependência de Poucos Parceiros: Aqui, o acordo pode gerar um benefício relevante. A ampliação do acesso ao mercado europeu é uma chance concreta de reduzir a excessiva concentração das exportações brasileiras na China e nos EUA, diversificando os destinos e mitigando riscos geopolíticos.

A Necessidade de uma Estratégia Doméstica

Portanto, o acordo por si só não resolverá a vulnerabilidade estrutural. Para transformar o acesso a novos mercados em desenvolvimento sustentável, será indispensável uma estratégia interna clara e coordenada.

Essa estratégia deve passar por:

  • Políticas industriais modernas e focadas em inovação.
  • Investimentos consistentes em pesquisa, desenvolvimento e tecnologia.
  • Qualificação da mão de obra para setores de maior valor agregado.
  • Integração efetiva entre universidades, centros de pesquisa e o setor produtivo.

O acordo pode ser uma alavanca para o desenvolvimento, mas somente se for acompanhado de políticas públicas que transformem acesso a mercados em ganhos sustentáveis de produtividade, diversificação exportadora e crescimento de longo prazo.

Em resumo, a tendência é que, no curto e médio prazo, o Brasil continue exportando principalmente produtos básicos, porém para um leque mais diversificado de países. O grande desafio nacional será usar o acordo como uma ferramenta para construir uma economia mais complexa, sofisticada e resiliente.