O Cenário Global: Juros Altos e a Busca por Liquidez

O ambiente macroeconômico continua sendo o fator determinante para o apetite de risco em ativos digitais. A persistência de juros reais elevados em economias centrais, impulsionada por níveis históricos de endividamento público, tende a restringir a liquidez internacional. Criptoativos são extremamente sensíveis a esse fluxo de capital global, o que explica parte da contenção observada.

“O ponto central continua sendo os juros reais globais. Cripto é muito sensível à liquidez internacional. Se prevalecer um ambiente de juros persistentemente altos, o mercado fica mais contido.”

— Elaine Borges, Professora Doutora de Finanças da USP

Esse cenário sugere que 2026 pode não ser um ano de “boom eufórico”, mas sim de consolidação. A gestora 21Shares, em seu relatório de perspectivas, avalia que o mercado agora possui bases mais sólidas. O potencial de alta pode ser menos explosivo, mas as correções tendem a ser mais suaves, refletindo uma maturidade crescente e uma participação institucional mais robusta.

Bitcoin: A Busca por Novos Recordes Históricos

Apesar das turbulências, o otimismo em relação ao Bitcoin, a criptomoeda líder, permanece. Após atingir a marca histórica de US$ 126 mil em outubro de 2025, o ativo corrigiu e estabilizou em patamares próximos a US$ 90 mil. A análise de especialistas, no entanto, projeta um cenário favorável para a renovação dessas máximas.

Trajetória do Bitcoin (2025): Recorde de US$ 126 mil em outubro, seguido de correção para ~US$ 90 mil.

Dados de mercado consolidados

A 21Shares acredita que o Bitcoin pode superar seus picos anteriores em 2026, beneficiando-se de uma melhoria gradual na liquidez global e do aumento contínuo da participação de grandes investidores institucionais. Essa combinação cria um piso de demanda mais consistente para o ativo.

Os Pilares da Recuperação

  • Adoção Institucional: A entrada de fundos, bancos e corporações traz volume e legitimidade ao mercado.
  • Clareza Regulatória: Regras mais definidas reduzem a incerteza jurídica e atraem capital cauteloso.
  • Infraestrutura Financeira: O crescimento das stablecoins facilita a entrada e saída de capital no ecossistema.

A Revolução Silenciosa: Stablecoins e a Tokenização

Enquanto a atenção se volta para a volatilidade do Bitcoin, uma revolução mais silenciosa e estrutural ganha força: a ascensão das stablecoins. Essas criptomoedas lastreadas em moedas fiduciárias, como o dólar, estão se tornando a espinha dorsal da liquidez no mercado digital.

Elaine Borges destaca seu papel fundamental: “Devem continuar sendo fundamentais como infraestrutura de liquidez, especialmente para transações internacionais.” As projeções são ambiciosas. O relatório da 21Shares prevê que o volume total do mercado de stablecoins pode mais que triplicar em 2026, saltando dos atuais US$ 300 bilhões para a casa do US$ 1 trilhão.

Um debate crucial é a coexistência entre stablecoins privadas e as CBDCs (Moedas Digitais de Bancos Centrais). Especialistas acreditam que não se trata de substituição, mas de integração. As CBDCs devem ocupar espaço nos sistemas de pagamento digitais de varejo, enquanto as stablecoins atuam em ecossistemos mais amplos de tokenização de ativos e liquidação financeira.

Regulação no Brasil: Segurança Jurídica em Construção

No Brasil, o grande marco para 2026 será a implementação das novas resoluções do Banco Central sobre ativos virtuais, anunciadas no final de 2025. As regras estabelecem parâmetros claros para autorização, governança, capital mínimo e controles internos das exchanges e demais prestadores de serviço.

“O avanço da regulação mostra que inovação e segurança caminham juntas. O Brasil vive um momento único, em que a tecnologia deixa de ser promessa e se torna base real para uma economia digital mais eficiente e acessível.”

— Fábio Moraes, Diretor de Educação e Pesquisa da ABcripto

A expectativa é de uma implementação gradual ao longo de 2025-2026, com um período de transição para que as empresas se adequem. Este movimento tende a trazer mais segurança jurídica e facilitar a entrada de grandes investidores institucionais no mercado nacional. No entanto, há um custo: uma provável concentração do setor, com a saída de operadores menores que não conseguirem atender às exigências de capital e compliance.


Conclusão: Um Mercado em Amadurecimento

O ano de 2026 se apresenta como um divisor de águas para o mercado de criptoativos. Se 2025 foi marcado por expectativas frustradas, o próximo ciclo será definido por fundamentos mais concretos. A combinação de uma regulação mais clara, uma infraestrutura financeira em expansão (com as stablecoins) e uma base de investidores mais diversificada cria um ambiente propício para um crescimento sustentado.

O caminho para novos recordes do Bitcoin existe, mas será percorrido com menos euforia e mais solidez. O foco dos investidores deve se voltar para a maturidade regulatória, a saúde da liquidez global e a adoção real de tecnologias de tokenização, que são os verdadeiros motores de longo prazo para esta nova economia digital.

Análise baseada em perspectivas de mercado para dezembro de 2025.