O Estrangulamento do Estreito de Ormuz

Inicialmente, o ponto crítico da crise é o bloqueio do Estreito de Ormuz. Esta passagem é um gargalo geopolítico por onde transita cerca de um terço do petróleo transportado por mar e um quinto do gás natural liquefeito (GNL) global. Entretanto, após uma série de ataques com drones e mísseis, o tráfego praticamente paralisou. Para começar, apenas cinco petroleiros cruzaram o estreito em um dia recente, comparado a uma média diária de 51 em fevereiro.

Impacto Imediato: Preço do petróleo Brent subiu 15% em uma semana, superando US$ 84 o barril. O gás natural na Europa valorizou mais de 55%, chegando a € 50 por megawatt-hora.

Fonte: Dados de mercado compilados por agências internacionais.

Reconfiguração do Mercado Petrolífero Global

Consequentemente, os compradores asiáticos, altamente dependentes do Golfo, estão em uma corrida desesperada por alternativas. Da mesma forma, países como China, Japão e Coreia do Sul, apesar de possuírem estoques estratégicos, buscam suprimentos em outras regiões. Por outro lado, essa demanda repentina por barris do Atlântico está inflacionando preços em todo o mundo.

  • Mudança de Rotas: Compradores recorrem a fornecedores da África Ocidental, Estados Unidos, Brasil, Guiana e Noruega.
  • Prêmio Recorde: Petróleo brasileiro para entrega na China foi oferecido com um prêmio de US$ 10 sobre o Brent, ante US$ 3,40 antes da crise.
  • Limite de Armazenamento: Países como Iraque e Kuwait podem ser forçados a interromper produção em dias devido à falta de capacidade para estocar o petróleo que não pode ser exportado.

A Crise do Gás Natural e Seus Efeitos em Cascata

No entanto, a interrupção no fornecimento de GNL pode ter um impacto ainda mais forte e imediato. O complexo de Ras Laffan, no Catar – responsável por 17% das exportações globais de GNL – está inoperante. Além disso, dezenas de navios metaneiros estão parados, incapazes de cruzar o estreito bloqueado.

Portanto, os preços na Ásia dispararam, criando um efeito dominó. Em resumo, como a Europa e a Ásia agora competem pelas mesmas cargas spot de gás, os preços europeus tendem a se equiparar aos altíssimos patamares asiáticos. A situação é agravada pelo fato de os estoques europeus de gás estarem 10% menores do que no ano anterior.

Impacto Econômico Global e Inflação

Primeiramente, o choque energético já abalou bolsas de valores, especialmente na Ásia. Entretanto, as consequências macroeconômicas de longo prazo são profundamente preocupantes. Segundo estimativas baseadas em regras do Fundo Monetário Internacional (FMI), um aumento sustentado do petróleo para US$ 100 o barril poderia reduzir o crescimento do PIB global em 0,4 ponto percentual e elevar a inflação mundial em 1,2 ponto.

“Uma interrupção de quatro semanas no fluxo de petróleo poderia elevar os preços para perto de US$ 150 o barril.”

Projeção da empresa de dados Kpler

Vítimas e Relativa Imunidade

Por outro lado, os efeitos serão desiguais. Grandes importadores líquidos de energia, como Índia e Tailândia, serão os mais afetados, possivelmente vendo seus déficits fiscais aumentarem devido a subsídios para conter preços internos. Apesar disso, os Estados Unidos, por serem um grande produtor, sofrem menos. Seu mercado interno de gás é mais isolado, e o país pode recorrer à sua Reserva Estratégica de Petróleo se necessário.

Um Futuro de Incerteza e Preços Elevados

Portanto, mesmo após uma eventual reabertura do Estreito de Ormuz, os mercados de energia devem permanecer apertados. Consequentemente, tanto a Ásia quanto a Europa precisarão reabastecer estoques esgotados de forma agressiva, mantendo a pressão de alta nos preços. Em última análise, a duração deste conflito definirá a profundidade da cicatriz que deixará na economia global, com o fantasma da estagflação – crescimento baixo com inflação alta – pairando novamente sobre o mundo.