O Desafio dos Cortes de Geração

Inicialmente, é crucial entender o contexto que motiva essa movimentação inusitada. O complexo solar, que possui 753 MW de capacidade e consumiu R$ 3,3 bilhões em investimentos, sofre com os chamados curtailments ou cortes de geração. Conforme Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), essas restrições são impostas para equilibrar o sistema. Portanto, a energia produzida e não injetada na rede se transforma em perda financeira direta.

Complexo Assú Sol (Engie): 753 MW de capacidade | R$ 3,3 bi investidos | 1,5 milhão de módulos fotovoltaicos.

Fonte: Divulgação Engie Brasil

Bitcoin Como Solução para a Energia Desperdiçada

Para começar, a mineração de criptomoedas demanda uma quantidade intensa e constante de energia elétrica. Dessa forma, ela se apresenta como uma “demanda local” perfeita para consumir a energia que, de outra maneira, seria cortada e perdida. Eduardo Sattamini, country manager da Engie no Brasil, confirmou a análise. “Estamos analisando possíveis compradores para essa energia e acordos para que possamos gerar energia para ser usada na mineração de bitcoin”, declarou.

  • Problema: Sobrecarga do sistema e cortes obrigatórios de geração solar/eólica.
  • Solução em Avaliação: Criar demanda local com data centers de mineração.
  • Vantagem: Otimiza o ativo, melhora o retorno financeiro e reduz desperdício.

Um Mercado em Desequilíbrio e a Pausa em Novos Investimentos

No entanto, o cenário que levou a essa solução extrema é complexo. O executivo da Engie atribuiu o problema a um boom de oferta renovável, impulsionado por incentivos à geração distribuída, que criou uma situação de sobreoferta durante o dia. Consequentemente, a subsidiária brasileira da empresa adotou uma postura cautelosa. “Não nos vejo investindo em nova capacidade solar até que se tenha uma solução para os cortes de geração”, afirmou Sattamini, sinalizando uma pausa estratégica em novos projetos do tipo no Brasil.

“É uma solução que não surge no mês que vem. Levará alguns anos para implementarmos.”

Eduardo Sattamini, Country Manager da Engie no Brasil

O Impacto no Setor e no Futuro da Energia Limpa

Por outro lado, a iniciativa da Engie pode abrir um precedente importante para todo o setor. Se bem-sucedida, a integração entre geração renovável em larga escala e demandas de alto consumo, como a mineração, pode se tornar um modelo a ser seguido. Em resumo, a tecnologia blockchain, frequentemente criticada pelo gasto energético, pode, paradoxalmente, se tornar uma aliada na viabilidade econômica de grandes parques solares e eólicos, acelerando a transição energética.

Linha do Tempo do Projeto

  1. Investimento e Construção: 2,5 anos e R$ 3,3 bilhões aplicados.
  2. Operação Comercial: Complexo Assú Sol entra em pleno funcionamento em fevereiro de 2025.
  3. Identificação do Problema: Cortes de geração (curtailments) impactam a receita.
  4. Busca por Soluções: Avaliação de mineração de Bitcoin e sistemas de baterias.
  5. Horizonte Futuro: Implementação, se aprovada, deve levar “alguns anos”.