O Verdicto que Abalou a Política Comercial
Primeiramente, é crucial entender o ponto de partida. A Suprema Corte decidiu, por 6 votos a 3, que a administração anterior não tinha autoridade legal para impor tarifas globais usando uma lei de poderes de emergência, a IEEPA. Entretanto, os juízes deixaram uma questão crucial em aberto: se e como os importadores teriam direito ao reembolso dos bilhões já recolhidos.
Conforme registros oficiais, a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA arrecadou aproximadamente US$ 170 bilhões com essas tarifas. O juiz Brett Kavanaugh, em seu voto dissidente, previu que o processo para devolver esse montante provavelmente seria uma “bagunça”.
Quem Está na Fila pelos Reembolsos?
Para começar, a escala é monumental. Mais de 1.500 empresas já entraram com processos no Tribunal de Comércio Internacional dos EUA para se posicionarem na fila por reembolsos. A lista inclui desde gigantes do varejo, como a Costco, até grandes industriais, como a produtora de alumínio Alcoa, além de centenas de pequenas e médias empresas.
- Grandes Varejistas: Empresas como Home Depot e marcas de vestuário, fortemente impactadas por custos com produtos asiáticos.
- Fabricantes Diversos: Desde eletrônicos e automóveis até têxteis e brinquedos, setores que importam componentes ou produtos finais.
- Empresas de Pequeno Porte: Como a Lalo, fabricante de produtos infantis, que busca recuperar mais de US$ 2 milhões pagos.
Além disso, analistas da Bloomberg Economics apontam que os setores de construção, máquinas e eletrodomésticos também estão particularmente expostos e devem buscar suas parcelas.
Os Desafios e a “Mamata Corporativa”
No entanto, o caminho para o reembolso está repleto de incertezas. O processo retornou ao Tribunal de Comércio Internacional, que terá de criar um mecanismo para lidar com centenas de milhares de importadores. Ted Murphy, sócio da Sidley Austin LLP, resume: “Qual será o processo de reembolso e quanto tempo levará é uma grande questão”.
Surge, então, um debate ético e econômico. O secretário do Tesouro, Scott Bessent
Valor em Disputa: US$ 170 bilhões (aproximadamente R$ 880 bilhões) Número de Importadores Envolvidos: Mais de 300 mil Processos Judiciais Iniciados: Mais de 1.500
Impacto no Varejo e nas Cadeias Globais
Da mesma forma, a decisão tem implicações imediatas para o varejo global. Empresas como a Lululemon já haviam alertado que suas margens de lucro seriam pressionadas pelos custos tarifários. Zak Stambor, analista da Emarketer, prevê um “impulso modesto” para as vendas, mas adverte que a incerteza política comercial persiste.
Portanto, embora haja um alívio no curto prazo, especialistas como Joe Feldman, do Telsey Advisory Group, são cautelosos. Eles lembram que os preços ao consumidor raramente caem após aumentos, e qualquer benefício em margem de lucro para as empresas pode ser gradual e não representar uma “enxurrada de dinheiro”.
O Longo Caminho pela Frente
Consequentemente, as empresas estão sendo aconselhadas a organizar todos os registros de importação, mesmo sem um processo de reembolso definido. Despachantes aduaneiros alertam que o governo pode exigir provas complexas, como documentação de que o custo não foi repassado.
Em resumo, enquanto alguns executivos, como Hans Heim da Ibis Cycles, veem a possibilidade de reembolso com cauteloso otimismo, o sentimento predominante é de que o prejuízo operacional e a instabilidade causados foram maiores. “As pessoas prefeririam dez vezes mais que isso nunca tivesse acontecido”, conclui Heim. A batalha nos tribunais, que pode se estender por anos, acaba de começar.