O Cálculo que Explica a Desigualdade Extrema

Primeiramente, considere um patrimônio de R$ 1 bilhão aplicado em títulos públicos atrelados à taxa básica de juros. Com a Selic em 15% ao ano, o rendimento anual chega a R$ 150 milhões. Dividindo esse valor pelos 365 dias do ano, o resultado é um ganho diário superior a R$ 400 mil. Portanto, um único indivíduo pode acumular, em um único dia, mais do que a renda anual de um trabalhador que recebe um salário mínimo.

Comparativo de Renda: R$ 400 mil/dia (aplicação financeira) vs. R$ 1.412/mês (salário mínimo em 2025).

Fonte: Cálculos baseados em BCB e IBGE

Além disso, esse modelo cria um ciclo perverso. Conforme explica o economista Ladislau Dowbor, em seu site, a concentração de renda fragiliza a demanda interna. Se as famílias não consomem, as empresas não vendem e não investem em expansão ou novos postos de trabalho.

Os Múltiplos Drenos da Economia Produtiva

Entretanto, os juros altos para aplicadores são apenas uma parte do problema. O sistema atual opera com vários mecanismos que transferem recursos da economia real para o setor financeiro. Inicialmente, podemos listar os principais “drenos” identificados por especialistas:

  • Pagamento de juros da dívida pública: Consome aproximadamente 10% do Produto Interno Bruto (PIB).
  • Endividamento das famílias: Com juros médios altíssimos, também retira cerca de 10% do PIB.
  • Custo do crédito para pequenas empresas: Juros de até 25% ao ano drenam mais 4% do PIB.
  • Isenções fiscais seletivas: Como a não tributação de lucros e dividendos, e a Lei Kandir, que beneficiam grandes setores.

Da mesma forma, a evasão fiscal e as renúncias tributárias questionáveis completam um quadro onde cerca de 30% do PIB potencial é desviado de investimentos produtivos. Esse dinheiro, como aponta dados do Banco Central, deixa de ser aplicado em saneamento, educação, saúde e infraestrutura, que têm efeito multiplicador na economia.

O Círculo Vicioso que Trava o Desenvolvimento

No entanto, por que esse sistema se mantém? A resposta envolve uma complexa teia de interesses. Aplicações financeiras rendem muito mais, com muito menos risco, do que investir na abertura de uma fábrica ou no desenvolvimento de tecnologia. Consequentemente, o capital migra para a especulação.

“Ganha-se muito mais dinheiro através de processos financeiros do que produtivos no Brasil. O ciclo da economia não fecha.”

Ladislau Dowbor, economista e professor

Por outro lado, essa lógica tem um custo social imenso. A falta de investimento produtivo limita a criação de empregos de qualidade e mantém os salários baixos. Apesar disso, uma parcela da população vê sua renda crescer exponencialmente sem qualquer contrapartida em geração de riqueza real, aumentando o abismo social.

Alternativas e o Papel do Investimento Público

Portanto, romper com esse ciclo exige mudanças estruturais. Em resumo, é preciso redirecionar o capital para a economia produtiva. Um caminho, observado em outras nações, é a parceria estratégica entre Estado e iniciativa privada para fomentar setores-chave, como energias renováveis e infraestrutura.

Inicialmente, o Estado pode atuar como indutor, assumindo os riscos iniciais de grandes projetos de inovação. Em seguida, o setor privado, com acesso a crédito barato, amplia a escala, gera empregos e dinamiza a cadeia produtiva. Além disso, investimentos públicos em saúde preventiva, educação e saneamento representam um “salário indireto” que aumenta o bem-estar e libera a renda familiar para o consumo, fechando o ciclo virtuoso da economia.

Finalmente, a reformulação do sistema tributário, hoje extremamente regressivo por pesar mais sobre o consumo, é vista como crucial. A taxação progressiva sobre grandes fortunas e rendas do capital poderia fornecer recursos para esses investimentos sociais, em um movimento de redistribuição e estímulo ao desenvolvimento real.