O Panorama do Déficit Nominal

Para começar, o setor público consolidado, que inclui União, estados, municípios e empresas estatais, registrou um déficit nominal de R$ 1,076 trilhão em 2025. Inicialmente, é crucial diferenciar este indicador do resultado primário, pois ele incorpora todas as despesas com juros da dívida pública. Conforme dados divulgados pelo Banco Central, este é o terceiro ano consecutivo que o rombo ultrapassa a marca de um trilhão de reais, seguindo os patamares de 2023 (R$ 1,074 tri) e 2024 (R$ 1,065 tri).

Déficit Nominal do Setor Público Consolidado (valores reais):

  • 2023: R$ 1,074 trilhão
  • 2024: R$ 1,065 trilhão
  • 2025: R$ 1,076 trilhão
Fonte: Banco Central. Valores corrigidos pelo IPCA.

A Trajetória de Crescimento da Dívida Pública

Além disso, o termômetro da deterioração fiscal é a trajetória da dívida pública. A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) alcançou 78,7% do Produto Interno Bruto (PIB) ao final do ano passado, o que corresponde a aproximadamente R$ 10 trilhões. Portanto, esse movimento representa um aumento significativo no indicador, pressionando as perspectivas de médio e longo prazo para a economia nacional.

Da mesma forma, a Dívida Pública Federal (DPF), divulgada pelo Tesouro Nacional, fechou 2025 em R$ 8,65 trilhões, registrando sua maior alta anual desde 2015. Projeções do Ministério da Fazenda indicam que este estoque pode atingir até R$ 10,3 trilhões ainda em 2026, um ano marcado pelo ciclo eleitoral.

O Peso dos Juros e o Papel da Selic

No entanto, um componente central para entender o déficit nominal é a despesa com juros. Em valores reais, o setor público consolidado gastou R$ 1,023 trilhão com o serviço da dívida em 2025. Este custo está diretamente vinculado ao nível da taxa básica de juros, a Selic, que se manteve em 15% ao ano desde junho do ano passado.

Quanto maior a Selic, mais caro fica para o governo pagar os juros da sua própria dívida. O retorno elevado serve como prêmio de risco para atrair investidores a financiar o endividamento público.

Por outro lado, os juros altos são um instrumento de política monetária para conter pressões inflacionárias e frear o aquecimento da economia. Entretanto, eles criam um ciclo oneroso para as contas públicas, onde o custo do financiamento governamental aumenta substancialmente.

Resultado Primário Também em Território Negativo

Apesar do foco no déficit nominal, o resultado primário – que exclui os juros – também permaneceu negativo. O setor público consolidado registrou um déficit primário de R$ 53,3 bilhões em 2025, um aumento de 6,7% em relação ao ano anterior, em termos reais. Isso ocorreu mesmo com o governo central reportando uma arrecadação recorde, impulsionada por aumentos de impostos e outras medidas de elevação de receita.

Consequentemente, a combinação entre gastos primários elevados e uma carga de juros histórica consolida um cenário fiscal complexo. A despesa total do governo federal aumentou sua participação no PIB, passando de 18% em 2022 para 18,8% em 2025.

Desafios e Perspectivas Futuras

Em resumo, a persistência de um rombo fiscal acima de R$ 1 trilhão por três anos consecutivos sinaliza desafios estruturais. Primeiramente, a trajetória de crescimento da dívida pública exige atenção constante. Além disso, o ambiente de juros elevados, necessário para o controle inflacionário, impõe um custo financeiro crescente ao erário.

Portanto, os agentes de mercado incorporam esses riscos fiscais ao avaliar o cenário econômico, o que pode influenciar decisões de investimento de longo prazo. A sustentabilidade das contas públicas permanece como uma questão central para a estabilidade e o crescimento da economia brasileira nos próximos anos.