O Impacto do Aço Chinês no Mercado Nacional

Para começar, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) impôs, em fevereiro, tarifas antidumping por cinco anos sobre o aço proveniente da China. Inicialmente, essas tarifas adicionais, que variam de US$ 323 a US$ 670 por tonelada, visam combater uma prática considerada ilegal no comércio internacional. Consequentemente, produtos chineses haviam conquistado cerca de 30% do mercado interno de aço, pressionando os lucros de todas as siderúrgicas brasileiras.

Dívida Líquida da CSN (3º Tri 2025): R$ 37,5 bilhões

Alavancagem (Dívida/Ebitda): 3,14 vezes

Fonte: Dados da companhia

Um Respiro para a Siderurgia Nacional

Entretanto, o efeito é particularmente sensível para a CSN. Por produzir aços com maior valor agregado, o custo do frete dos concorrentes internacionais tem um peso menor no preço final de seus produtos, tornando-a mais vulnerável à concorrência de preços. Portanto, as novas tarifas podem permitir que a empresa recupere parte de sua receita no curto prazo. “Essas medidas antidumping podem ajudar um pouco o setor como um todo”, afirma Daniel Sasson, analista do Itaú BBA, alertando, porém, para o risco de os volumes chineses serem substituídos por importações de outros países, como a Coreia do Sul.

O Desafio Monumental da Dívida

No entanto, o alívio comercial é apenas um lado da moeda. A verdadeira batalha da CSN é contra seu endividamento estratosférico. Para contextualizar, cerca de 75% de sua dívida precisa ser quitada até 2028. Em comparação, concorrentes como Usiminas e Gerdau apresentam alavancagens muito menores, de 0,16 e 0,81 vezes, respectivamente. Diante desse cenário, o plano de recuperação passa por uma drástica desapropriação de ativos.

  • Venda do Negócio de Cimento: Busca gerar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões.
  • Desfazer-se de Parte da Logística: Inclui portos e ferrovias no Sudeste.
  • Busca de Parceiros para a Siderurgia: Setor precisa de modernização com investimento de ao menos US$ 1 bilhão.

Obstáculos no Caminho da Recuperação

Apesar do plano, analistas veem desafios complexos. Primeiramente, encontrar um único investidor interessado em uma carteira tão heterogênea de ativos, e em uma posição minoritária, não é trivial. Além disso, a reputação do controlador, Benjamin Steinbruch, por disputas empresariais históricas com gigantes como Vale e Gerdau, pode ser um complicador para atrair parceiros. “Talvez não seja tão trivial você achar algum investidor que queira ser seu parceiro”, pondera o analista do Itaú BBA.

“Estamos vivendo um desafio de juros estratosféricos e competição de produtos importados de forma desorganizada e desnecessária que compromete muito o eventual crescimento e investimentos das empresas empreendedoras.”

Benjamin Steinbruch, presidente e controlador da CSN

O Futuro: Mineração como Âncora e Modernização

Atualmente, mais da metade do lucro da CSN vem da mineração de ferro, setor no qual é a segunda maior produtora do Brasil. Portanto, a continuidade e expansão dessa operação são vitais. A empresa planeja um investimento de R$ 13 bilhões em um novo projeto de mineração, o que, paradoxalmente, pressionará ainda mais suas contas no curto prazo. Conforme acordo com o BNDES, também há previsão de R$ 1,13 bilhão para modernizar a planta siderúrgica de Volta Redonda (RJ). Em resumo, a CSN trilha um caminho estreito, onde o fôlego dado pelas tarifas antidumping precisa ser rapidamente convertido em uma reestruturação financeira bem-sucedida para assegurar seu futuro.