O Cenário de Desaceleração e os Motores do Crescimento
Inicialmente, é importante contextualizar que a taxa de 2,3% segue quatro anos de crescimento superior a 3%. Para começar, o desempenho de 2025 ficou abaixo do registrado em 2024, que foi de 3,4%. A trajetória ao longo do ano passado foi irregular, com um forte primeiro trimestre (1,5%) seguido por trimestres praticamente estagnados.
Entretanto, o crescimento não foi uniforme entre os setores. O grande destaque foi a agropecuária, que registrou uma alta expressiva de 11,7% no acumulado do ano. Da mesma forma, a indústria extrativa, que inclui a extração de petróleo e gás, também teve um desempenho robusto, com crescimento de 8,6%.
Contribuição Setorial para o PIB de 2025:
- Agropecuária: 32,8% do volume adicionado
- Indústria Extrativa: 15,3%
- Outros Serviços: 14,6%
- Informação e Comunicação: 9,4%
Por outro lado, setores mais sensíveis à política monetária apresentaram resultados modestos ou negativos. A indústria de transformação, por exemplo, recuou 0,2% no ano. Portanto, ficou claro que o ciclo de alta da taxa Selic, que atingiu 15% ao ano, exerceu seu efeito restritivo sobre partes significativas da atividade econômica.
Consumo, Investimentos e o Impacto dos Juros Altos
O consumo das famílias, um dos principais componentes da demanda, cresceu apenas 1,3% em 2025. Este é o resultado mais fraco desde 2020, refletindo a combinação de endividamento e do custo elevado do crédito. Apesar disso, o mercado de trabalho manteve sinais de recuperação, o que evitou uma contração mais acentuada.
Além disso, os investimentos produtivos (Formação Bruta de Capital Fixo) também perderam força, com uma alta de 2,9%, bem abaixo dos 6,9% observados em 2024. No entanto, o consumo do governo manteve um ritmo estável, com crescimento de 2,1%.
“Ficou claro que os juros tiveram efeito de conter o crescimento. Mas é bom ressaltar que o PIB conseguiu crescer apesar disso. Não é um resultado ruim, embora seja o menor dos últimos cinco anos.”
Juliana Trece, economista do FGV Ibre
No setor externo, as exportações tiveram um bom desempenho, crescendo 6,2%, impulsionadas pela produção agrícola e de commodities. As importações, por sua vez, desaceleraram significativamente, com alta de 4,5% contra 15,6% em 2024. Consequentemente, o saldo comercial contribuiu positivamente para o resultado do PIB.
Perspectivas e Desafios para a Economia em 2026
As projeções para o corrente ano apontam para um cenário de continuidade de desafios. O mercado financeiro, conforme o boletim Focus do Banco Central, prevê uma expansão de 1,82% para o PIB de 2026. O governo federal, por meio da Secretaria de Política Econômica, mantém uma expectativa mais otimista, de 2,3%.
No entanto, vários fatores introduzem incertezas. Primeiramente, espera-se que o setor agropecuário não repita o desempenho excepcional de 2025. Em segundo lugar, mesmo com o início esperado de um ciclo de cortes na taxa Selic, os juros devem permanecer em patamares elevados por boa parte do ano, mantendo o crédito caro.
Por outro lado, medidas de estímulo fiscal, como a isenção do Imposto de Renda para rendimentos de até R$ 5.000, e o tradicional aumento de gastos em ano eleitoral podem injetar fôlego na economia. Ainda assim, o contexto internacional, particularmente os desdobramentos de conflitos geopolíticos que afetam o preço do petróleo, representa um risco inflacionário que pode influenciar a decisão das autoridades monetárias.
Principais Fatores que Influenciarão 2026
- Trajetória da Taxa de Juros (Selic): O ritmo e a magnitude dos cortes pelo Banco Central.
- Desempenho do Agronegócio: Capacidade de manter produção em níveis elevados.
- Consumo das Famílias: Impacto da isenção de IR e da evolução da renda e do emprego.
- Cenário Internacional: Preço de commodities e crescimento da economia global.
Contexto Institucional e a Divulgação dos Dados
A divulgação dos resultados do PIB ocorreu em um momento de turbulência interna no IBGE. A retirada da pesquisadora Rebeca Palis da coordenação de contas nacionais, departamento responsável pelo cálculo do indicador, gerou protestos de parte do corpo técnico e levou à renúncia de outros gestores da área.
Apesar da polêmica, a apresentação dos dados à imprensa foi conduzida pela própria pesquisadora. A direção do instituto, liderada por Marcio Pochmann, defendeu publicamente a gestão e a qualidade das estatísticas produzidas, afirmando que o IBGE segue com seu processo de modernização metodológica.
Em resumo, a economia brasileira demonstrou resiliência em 2025 ao crescer em um ambiente de aperto monetário, mas revelou uma forte dependência de setores primários e exportadores. O desafio para 2026 será sustentar a expansão com um motor de crescimento mais diversificado, enquanto navega pelas incertezas domésticas e globais.