O Ciclo Vicioso da Automação e Seus Efeitos
Primeiramente, o estudo da Citrini Research argumenta que a evolução das ferramentas de IA iniciará um ciclo difícil de interromper. Conforme as capacidades tecnológicas avançam, as empresas começariam a depender menos de trabalhadores humanos, especialmente em funções administrativas. Essa substituição geraria demissões em larga escala.
“Com o aprimoramento das capacidades da IA, as empresas passaram a precisar de menos trabalhadores, aumentando as demissões… foi um ciclo vicioso sem freio natural”, descreve Alap Shah, autor do relatório.
Citrini Research
Além disso, o documento introduz o conceito de um “PIB fantasma”. Nele, os ganhos de produtividade registrados nas estatísticas oficiais não se refletiriam na economia real, pois o poder de consumo da classe média-alta – grupo mais afetado pela automação – seria drasticamente reduzido. Esta classe sustenta uma parcela significativa da atividade econômica.
Impacto Direto no Mercado de Trabalho e no Setor de Software
Para começar, as projeções são concretas. O estudo estima que a taxa de desemprego nos EUA pode atingir 10,2% até meados de 2028. Paralelamente, a participação do trabalho no PIB americano cairia de 56% em 2024 para 46% no mesmo período.
Por outro lado, um paradoxo surge: a própria indústria que cria a tecnologia seria profundamente afetada. Agentes de IA avançados permitiriam que empresas replicassem funcionalidades essenciais de software, corroendo o modelo de negócios baseado em assinaturas de empresas tradicionais. Consequentemente, o setor de tecnologia enfrentaria uma forte retração.
Projeção para o S&P 500: Retração de 38% a partir de um pico previsto para outubro de 2026.
Risco Sistêmico: Crédito e Mercado Imobiliário
Inicialmente, a crise não ficaria contida no setor de tecnologia. Ela se espalharia por dois canais principais: o crédito privado e o mercado imobiliário. O relatório alerta que o setor de tecnologia, incapaz de pagar empréstitos contraídos durante anos de crescimento, poderia causar o “maior calote” da história.
Da mesma forma, uma crise imobiliária surgiria da incapacidade de trabalhadores demitidos honrarem seus financiamentos. Cidades fortemente ligadas à tecnologia, como São Francisco e Seattle, poderiam ver quedas de 8% a 11% no valor dos imóveis. Portanto, um novo ciclo de demissões e mais investimento em IA para cortar custos se instalaria, aprofundando a recessão.
Reação Imediata do Mercado Financeiro
Essa visão distópica encontrou terreno fértil em um mercado já nervoso. A publicação do relatório intensificou uma venda de ações de empresas de software e cibersegurança que já estava em curso, preocupadas com anúncios de empresas de IA como a Anthropic.
- Quedas Expressivas: Ações de CrowdStrike, Datadog e Zscaler caíram 11%. IBM registrou queda de 13%, a maior em décadas.
- Quedas Significativas: Fortinet, Okta e Workday recuaram cerca de 6%. Salesforce, ServiceNow e Oracle tiveram queda de 4%.
No entanto, o índice de software do S&P 500 já acumula perdas de 24% no ano, indicando que os temores são anteriores ao relatório.
Ceticismo e Chamada à Calma por Parte de Analistas
Apesar do impacto no mercado, muitos especialistas reagiram com ceticismo ao tom alarmista do documento. Analistas tentaram acalmar os investidores, argumentando que a realidade corporativa é mais complexa.
Dan Ives, da Wedbush Securities, destacou em nota: “O mercado está confundindo a capacidade de modelos fundacionais de IA com a substituição completa do software empresarial… A Anthropic/OpenAI não possui redes de distribuição empresarial com 20 anos de existência”.
Outros foram mais contundentes. Jeff Dorman, da Arca, afirmou que “o medo vende”. Deepak Shenoy, da Capitalmind, comparou o cenário apocalíptico a “o WWF do mundo atual, divertido de assistir, mas em grande parte falso”.
Em resumo, enquanto o relatório serve como um exercício de reflexão extrema sobre riscos futuros, a maioria do mercado acredita que a transição para uma economia mais automatizada será gradual e administrável, embora não isenta de desafios significativos.