Como Funciona o “Ouvido Biônico”
Primeiramente, é essencial entender o princípio por trás da inovação. A tecnologia, batizada de 4Fluid, substitui métodos tradicionais de detecção, como o geofone eletrônico — conhecido como “estetoscópio do asfalto”. Um dispositivo em forma de haste é encostado em um hidrômetro e coleta aproximadamente 10 segundos das vibrações da tubulação. Esses dados sonoros são imediatamente enviados para a nuvem.
Processo de Detecção: Coleta de som → Envio para nuvem → Análise por IA → Classificação (vazamento ou não).
Além disso, o sistema cruza essas informações com dados de pressão da rede. A inteligência artificial então compara o padrão vibratório coletado com um banco de dados contendo mais de oito milhões de amostras sonoras. Conforme explica a CEO da empresa, Marília Lara, um vazamento faz a tubulação vibrar de forma característica, gerando uma “assinatura” acústica que a IA é treinada para reconhecer.
Impacto Prático e Redução de Perdas
Portanto, os resultados operacionais são transformadores. Enquanto um vazamento subterrâneo poderia levar até 180 dias para ser localizado pelos métodos convencionais, a tecnologia com IA reduz esse tempo para cerca de sete dias. A solução gera um mapa de calor que indica as áreas com anomalias, direcionando as equipes de manutenção com exatidão.
- Redução de Perdas: Potencial para diminuir o desperdício de água em até 70%.
- Custo Acessível: Serviço varia entre R$ 100 e R$ 200 por quilômetro de rede ao mês.
- Escalabilidade: Sensores podem monitorar desde um bairro até uma cidade inteira.
Da mesma forma, o sistema já opera em diversos estados brasileiros e expandiu sua atuação para mercados internacionais, incluindo Índia, Colômbia e Portugal. No estado de São Paulo, cidades como Votorantim, Jundiaí e Itapetininga já utilizam a tecnologia. As propostas são prioritariamente direcionadas a municípios com altos índices de perda, com base em dados do Sistema Nacional de Informações de Saneamento (SNIS).
Reconhecimento Internacional e Futuro
No entanto, o grande marco para esta inovação ocorreu em janeiro de 2026. A empresa Stattus4, responsável pelo desenvolvimento, conquistou o Prêmio Zayed de Sustentabilidade, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, na categoria água. Este é um dos prêmios globais mais prestigiados na área, criado em homenagem ao fundador do país.
“Quando você trabalha com gestão de perdas, você está tirando menos água do manancial. Você contribui para uma maior resiliência hídrica de todo o ecossistema, esse é o nosso grande objetivo: salvar a água do mundo”, enfatizou Marília Lara, CEO da Stattus4.
Marília Lara, CEO da Stattus4
Consequentemente, além do troféu, a vitória garantiu um aporte de US$ 1 milhão (mais de R$ 5 milhões) para ampliar o desenvolvimento e o impacto da solução. A empresa, que começou suas operações no Parque Tecnológico de Sorocaba, já beneficiou mais de quatro milhões de pessoas com sua tecnologia.
Em resumo, esta iniciativa demonstra como a combinação de hardware simples com inteligência artificial complexa pode resolver um problema crônico de infraestrutura. A proposta vai além da detecção, integrando-se ao Sistema Ada, uma plataforma de gestão de perdas que transforma a operação das concessionárias de água, promovendo um uso mais racional e sustentável dos recursos hídricos.