O Cenário Contraditório: Atividade Fria e Inflação Quente
Para começar, o quadro atual expõe uma contradição desafiadora. Enquanto a atividade econômica perde força, impulsionada pelo impacto de uma política monetária restritiva, os preços ao consumidor não cedem no mesmo ritmo. O IPCA de janeiro ficou em 0,33%, mas as estimativas para fevereiro apontam para 0,50%, aumentando a incerteza sobre a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) em sua reunião de março. Conforme análise de especialistas, esse é o reflexo do ciclo de aperto monetário mais intenso das últimas duas décadas.
Projeção de Crescimento do PIB (2026): 2,3%
IPCA Acumulado 12 meses (Jan/26): 4,44%
Impacto Setorial da Desaceleração
Além disso, a perda de dinamismo é disseminada. Inicialmente, o comércio, que teve alta de 1,6% em 2025 após crescer 4,1% em 2024, enfrenta entraves que vão além do ciclo conjuntural. Da mesma forma, a indústria avançou apenas 0,6% no ano passado, uma desaceleração significativa frente aos 3,1% de 2024. O setor de serviços, embora mostre relativa resiliência com crescimento de 2,8% em 2025, também perde vigor em comparação com o ano anterior.
- Comércio: Crescimento de 1,6% em 2025 (ante 4,1% em 2024).
- Indústria: Produção avançou 0,6% em 2025 (ante 3,1% em 2024).
- Serviços: Expansão de 2,8% em 2025 (ante 3,1% em 2024).
O Dilema do Banco Central e a Trajetória dos Juros
No entanto, o grande desafio reside na calibragem da política monetária. A desaceleração da atividade ajuda na convergência da inflação para a meta, mas não garante um corte automático e agressivo da taxa Selic. Especialistas alertam que o Banco Central precisa de segurança quanto à trajetória consistente de queda dos preços antes de embarcar em um ciclo de afrouxamento monetário mais robusto.
“O maior aperto monetário dos últimos 20 anos deixou uma herança desafiadora. Retomar o nível de atividade a partir de uma Selic em torno de 15% leva tempo”, avalia um economista do setor.
Análise de Confederação Nacional do Comércio
Divergências no Mercado sobre a Magnitude do Corte
Por outro lado, o mercado financeiro se divide sobre a intensidade do primeiro corte. Enquanto algumas instituições enxergam espaço para uma redução de 0,50 ponto percentual, impulsionada pela apreciação do câmbio e perspectivas de dados econômicos mais fracos, outras projetam um movimento mais conservador de 0,25 ponto, refletindo o compromisso firme com o controle inflacionário.
- Cenário Mais Expansivo: Corte de 0,50 p.p., com Selic terminando 2026 em 11,50%.
- Cenário Mais Cauteloso: Corte inicial de 0,25 p.p., com ciclo de redução gradual.
Perspectivas e Riscos para 2026
Portanto, o resultado esperado para 2026 é um crescimento econômico inferior a 2%, marcado por uma transição gradual para juros mais baixos. O desafio contínuo será equilibrar o estímulo a uma economia que perde tração com a manutenção da credibilidade no combate à inflação. A evolução do câmbio e dos chamados núcleos de inflação, que excluem itens mais voláteis, serão determinantes para o ritmo desse processo.
Em resumo, a economia brasileira navega por um período de ajuste, onde a paciência e a precisão na condução das políticas econômicas serão cruciais para pavimentar uma recuperação sustentável nos próximos semestres.