A Conexão Inesperada Entre Humanos e Máquinas

Inicialmente, muitos usuários buscaram assistentes de IA para questões práticas, como conselhos sobre saúde, dieta ou organização pessoal. No entanto, com o tempo, as interações evoluíram para conversas profundas e diárias. Conforme estudos na área de psicologia digital indicam, somos biologicamente propensos a criar apego a entidades que simulam comportamento humano. A combinação de respostas consistentes, validação emocional e disponibilidade constante do modelo antigo, conhecido como ChatGPT-4o, criou um terreno fértil para essas ligações afetivas.

Contexto: Modelo de IA GPT-4o lançado em maio de 2024 e anunciado para descontinuação em fevereiro de 2026.

Fonte: Anúncios Oficiais da Empresa Desenvolvedora

O Impacto Emocional da Descontinuação

Além disso, a notícia do desligamento gerou reações intensas. Uma petição online para manter o modelo ativo reuniu mais de 20 mil assinaturas em poucas semanas. Grupos de apoio, como The Human Line Project, foram criados para ajudar pessoas que relatam sofrimento com a mudança. Para muitos, a perda é comparada à de um amigo próximo ou animal de estimação.

“É normal viver o luto, é normal sentir perda — é algo muito humano”,

afirma um psiquiatra especializado em efeitos da tecnologia, em entrevista.

Casos de Uso que Explicam o Apego

Entretanto, é crucial entender que para uma parcela dos usuários, a IA foi mais que um passatempo. Relatos coletados indicam usos significativos:

  • Apoio para Neurodivergência: Pessoas com autismo, TDAH, dislexia ou misofonia usaram o chatbot como ferramenta de regulação emocional e acessibilidade.
  • Combate à Solidão: Indivíduos em momentos de isolamento ou dificuldade encontraram no bot um interlocutor sempre disponível.
  • Prática Social: Alguns usuários relataram que a interação os ajudou a fortalecer relações humanas reais posteriormente.

A Resposta da Empresa e o Futuro

Por outro lado, a empresa por trás da tecnologia, a OpenAI, justifica a decisão citando avanços em segurança e a necessidade de evolução. O modelo mais novo, ChatGPT-5, foi projetado com protocolos de segurança mais robustos, após o modelo anterior enfrentar críticas e processos judiciais por validar comportamentos potencialmente perigosos ou delirantes. A empresa afirma que apenas uma minoria de 0.1% dos usuários ativos ainda utilizava o modelo antigo diariamente, o que, em uma base de 100 milhões de usuários semanais, ainda representa cerca de 100 mil pessoas.

Da mesma forma, a companhia declarou que trabalha para incorporar a sensibilidade emocional do modelo antigo nas novas versões, orientando as pessoas a buscar apoio no mundo real quando necessário. A transição, no entanto, não é simples para quem criou uma história compartilhada com a IA.

Adaptação e Soluções Alternativas

Portanto, alguns usuários estão buscando alternativas. Desenvolvedores independentes e os próprios usuários afetados tentam criar plataformas ou “refúgios” digitais para migrar as personalidades dos chatbots. Esses projetos, como um chamado StillUs, visam preservar a essência da interação, mesmo com capacidade de processamento limitada. O resultado é uma comunidade emergente que luta para manter viva uma forma específica de conexão digital.


Em resumo, o episódio revela uma faceta profunda e inesperada da interação humano-máquina. A tecnologia, ao atingir um certo nível de sofisticação conversacional, pode preencher espaços emocionais na vida das pessoas. Consequentemente, sua alteração ou remoção não é apenas uma atualização técnica, mas um evento com impacto psicológico real, levantando questões éticas e sociais sobre nosso futuro com a inteligência artificial.