O Modelo das Tesourarias de Criptoativos
Primeiramente, é crucial entender o que são essas companhias. Inspiradas no sucesso inicial da MicroStrategy, mais de 200 empresas ao redor do mundo se reinventaram como tesourarias de ativos digitais. Sua estratégia central era acumular criptomoedas como bitcoin e ether em seus balanços, apostando na valorização de longo prazo. Juntas, elas chegaram a custodiar cerca de US$ 150 bilhões em ativos digitais, conforme dados do setor.
No entanto, a realidade atual é bem diferente. Conforme relatórios financeiros recentes, muitas DATs já eram negociadas com desconto em relação ao valor de mercado de suas reservas mesmo antes da queda mais acentuada. Agora, com a desvalorização dos tokens, esse cenário se agravou drasticamente.
Perdas Acumuladas e a Pressão no Mercado
Além disso, os prejuízos reportados são vultosos. A fornecedora de dados Artemis estima que, no agregado, as DATs acumulam quedas superiores a US$ 20 bilhões. Para começar, a própria MicroStrategy reportou um prejuízo operacional de US$ 17,4 bilhões apenas no quarto trimestre de 2025. Da mesma forma, a BitMine Immersion Technologies, focada em Ethereum, registra mais de US$ 8 bilhões em perdas não realizadas.
Queda Acumulada (6 meses): MicroStrategy: -70% | BitMine: -66%
Por outro lado, o problema vai além dos grandes nomes. Dezenas de DATs menores passaram a negociar com descontos profundos, o que dificulta a captação de novos recursos e questiona sua razão de existir. Muitas atuavam como apostas oportunistas, sem uma estratégia estruturada de gestão de caixa ou do ativo, conforme analistas do setor.
As Armadilhas do Desconto e a Crise de Liquidez
Entretanto, um paradoxo surge: teoricamente, ações de DATs negociadas a uma fração do valor de suas criptomoedas parecem uma pechincha. Na prática, a situação é uma armadilha complexa. Inicialmente, a baixa liquidez de muitas dessas ações no mercado secundário impede que investidores realizem ganhos fáceis. Consequentemente, operações de fusão e aquisição, que poderiam consolidar o setor, se tornam extremamente difíceis.
“Acho realmente desafiador fazer M&As, pelo menos neste momento”, afirma Christian Lopez, diretor executivo da Cohen & Company Capital Markets. “Todos acham que estão subavaliados. No papel, uma fusão faz sentido. Mas aí começam os problemas de governança e de aprovação dos acionistas.”
- Problema 1: Acionistas presos a um papel descontado relutam em vender a empresa por um preço ainda abaixo do patrimônio.
- Problema 2: A baixa liquidez do ativo (a ação) impede financiamento e gera um ciclo vicioso.
- Problema 3: Sem caixa, as empresas perdem a flexibilidade para comprar mais cripto na baixa, que era a base de sua tese.
Mudança de Rota e o Verdadeiro Teste
Portanto, algumas empresas estão buscando mudanças radicais de direção. Um exemplo é a ProCap Financial, de Anthony Pompliano. Apesar de deter milhares de bitcoins, a empresa anunciou a aquisição de uma plataforma de finanças pessoais, reposicionando-se no mercado de inteligência artificial agêntica. Outras, como a ETHZilla, começam a explorar a tokenização de ativos do mundo real, como hipotecas, em busca de gerar fluxo de caixa.
Em resumo, o verdadeiro teste para as DATs neste ciclo de baixa é demonstrar um plano viável para gerar valor a partir de suas reservas cripto. Quando os preços estavam em alta, a estratégia de simplesmente acumular parecia suficiente. Agora, a diferença entre uma empresa com um modelo sustentável e uma mera “armadilha de balanço” se torna crítica para o futuro do setor.