O Efeito Dominó nas Bolsas de Valores
Primeiramente, as quedas foram particularmente severas no setor de software. Empresas como Datadog, CrowdStrike e Zscaler viram suas ações despencarem mais de 9% em um único dia de negociações. Da mesma forma, a International Business Machines (IBM) registrou sua pior queda diária em décadas, com uma desvalorização de 13%. O impacto, entretanto, não se limitou à tecnologia. Grandes instituições financeiras, incluindo JPMorgan Chase, Citigroup e Morgan Stanley, também recuaram mais de 4%, enquanto empresas de meios de pagamento como Mastercard e Visa seguiram a mesma tendência negativa.
Quedas Expressivas em um Dia (23/02):
- IBM: -13% (pior dia desde 2000)
- Datadog, CrowdStrike, Zscaler: -9% cada
- American Express: -7%
- JPMorgan, Citigroup, Morgan Stanley: -4%
A Narrativa do “PIB Fantasma” e do Desemprego em Massa
O texto que gerou a reação, publicado pela firma de pesquisa Citrini Research, apresenta um cenário fictício datado de junho de 2028. Inicialmente, ele descreve um mundo onde a inteligência artificial, após um período de euforia, desencadeia uma crise econômica profunda. O conceito central é o de um “PIB fantasma”: ganhos massivos de produtividade gerados por agentes de IA que não dormem e não tiram folgas, mas que são acompanhados por um desemprego em massa entre trabalhadores de colarinho branco.
Além disso, o artigo especula que essa riqueza gerada se tornaria ilusória. Conforme os profissionais bem remunerados são substituídos e realocados para empregos com salários muito menores, o poder de consumo da economia entraria em colapso. Portanto, a produção medida nas contas nacionais não se traduziria em circulação de renda real, criando uma espiral econômica negativa.
O Ciclo Vicioso da Substituição
O cenário traçado descreve um ciclo vicioso sem freios naturais. A sequência hipotética seria a seguinte:
- Capacidades da IA melhoram rapidamente.
- Empresas precisam de menos funcionários humanos.
- Demissões em larga escala aumentam, especialmente em setores administrativos.
- Trabalhadores demitidos gastam menos, reduzindo a demanda agregada.
- A pressão sobre as margens de lucro leva a mais investimentos em IA para cortar custos.
Este ciclo, segundo a narrativa, se aceleraria e se espalharia por setores como direito, contabilidade, imobiliário e até desenvolvimento de software, onde as próprias empresas criadoras da tecnologia sofreriam com a redução da demanda por suas licenças.
Críticas e Ceticismo em Relação ao Cenário
No entanto, especialistas e analistas reagiram com ceticismo à força atribuída ao artigo. Muitos argumentam que a reação do mercado diz mais sobre seu estado psicológico do que sobre a plausibilidade do cenário. Robert Armstrong, colunista do Financial Times, sugeriu que “o mais importante sobre o texto não é o que ele diz. É que o mercado de ações chegou ao ponto em que postagens em blogs causam movimentos significativos”.
“O argumento do ‘PIB fantasma’ pressupõe que os salários humanos substituídos desaparecerão permanentemente da economia, ignorando como os ganhos de produtividade historicamente tendem a realocar valor em vez de destruí-lo.”
Nick Lichtenberg, editor da Fortune
Por outro lado, defensores de uma visão mais otimista apontam para a adaptabilidade humana e institucional. Eles argumentam que a IA, ao reduzir custos de produção, pode baratear bens e serviços, aumentando o poder de compra real da população. Além disso, especialistas em tecnologia questionam a capacidade de automatização total, destacando que contextos dinâmicos e a necessidade de treinamento contínuo dos sistemas mantêm os humanos como peças essenciais em até 70% das ocupações atuais, conforme estimativas do setor.
O Tempo para uma Resposta Proativa
Os próprios autores do texto polêmico concluem reconhecendo que seus cenários são especulativos e que a sociedade ainda tem tempo para uma resposta proativa. Eles enfatizam que, como investidores, é momento de reavaliar quais premissas dos portfólios podem não resistir à próxima década de avanço tecnológico. Consequentemente, o debate levantado vai além do mercado financeiro, tocando em questões cruciais sobre políticas públicas, redes de proteção social e o futuro do trabalho na era da inteligência artificial geral.
Portanto, o episódio serve como um alerta sobre a extrema sensibilidade dos mercados a narrativas de futuro e sobre a necessidade urgente de um diálogo estruturado para moldar o impacto da IA na economia real, evitando que hipóteses catastróficas se tornem profecias autorrealizáveis.