As Horas Trabalhadas em Perspectiva Global

Para começar, uma pesquisa baseada em dados de 160 países, que cobrem 97% da população mundial, estabelece um parâmetro claro. Enquanto a média global de horas trabalhadas por semana foi de 42,7 em 2022 e 2023, os trabalhadores brasileiros, incluindo formais e informais, dedicaram em média 40,1 horas semanais. O levantamento, realizado pelo economista Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre, utiliza o mais amplo banco de dados global do tipo, organizado por economistas do Banco Mundial e da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Média Semanal de Horas Trabalhadas (2022-2023):

  • Média Global: 42,7 horas
  • Brasil: 40,1 horas
  • França: 31 horas
  • Coreia do Sul (homens): Trabalham 5h18min a mais que o esperado
Fonte: Banco de dados global de horas trabalhadas (Gethin & Saez) via FGV Ibre

A Relação entre Produtividade e Esforço

Inicialmente, a característica que melhor explica a quantidade de horas trabalhadas globalmente é a produtividade. No entanto, essa relação não é linear. Conforme os países saem da pobreza e se tornam de renda média, as horas trabalhadas tendem a aumentar. Posteriormente, quando a produtividade e o consumo atingem patamares muito altos, os trabalhadores passam a valorizar mais o lazer, reduzindo a jornada. Países como a França, com média de 31 horas semanais, ilustram essa fase.

Entretanto, o caso brasileiro é atípico. A análise do pesquisador Daniel Duque indica que o Brasil “desce a serra” precocemente. Dado o seu nível atual de produtividade e perfil demográfico, os brasileiros trabalham 1 hora e 12 minutos a menos por semana do que seria estatisticamente esperado. Em um ranking que considera esses fatores entre 85 países, o Brasil ocupa a 60ª posição, situando-se no terço inferior de menor esforço.

O Impacto do Estado e a Cultura do Lazer

Por outro lado, uma hipótese comum seria a de que altos encargos trabalhistas e transferências de renda desincentivariam o trabalho no Brasil. Contudo, quando impostos e benefícios sociais são incorporados à análise, a conclusão surpreende. Em um ranking que leva em conta esses fatores, o brasileiro ainda trabalha 1 hora e 18 minutos a menos do que a tendência esperada para sua realidade.

“Parece ser um sinal de que lazer, no Brasil, vale mais do que em outros lugares — e está tudo certo.”

Samuel Pessôa, economista do FGV Ibre

Portanto, a explicação mais plausível, segundo os economistas, é cultural: uma preferência nacional por uma quantidade maior de lazer em relação ao trabalho. Samuel Pessôa, colega de Duque no FGV Ibre, legitima essa escolha, embora aponte que o tempo gasto em deslocamento pode também influenciar a oferta de trabalho.

Consequências Diretas para a Renda Nacional

Consequentemente, essa menor oferta relativa de trabalho gera um impacto econômico inevitável: uma renda per capita mais baixa. Mesmo com ganhos de produtividade nas horas efetivamente trabalhadas, a compensação não é total. A comparação com países asiáticos é elucidativa. Enquanto os homens coreanos trabalham cerca de 6 horas a mais por semana do que o esperado para seu nível de produtividade, os homens brasileiros trabalham meia hora a menos. Entre as mulheres, a diferença chega a 11 horas semanais.

Da mesma forma, essa realidade deve ser considerada em debates sobre redução da jornada de trabalho, como o fim da escala 6×1. Qualquer medida que reduza ainda mais a jornada média terá um efeito direto na produção econômica do país. Em resumo, a escolha por mais lazer é legítima, mas não é isenta de custos para o crescimento e a geração de riqueza nacional.