Análise da Queda e o Contexto Macroeconômico
Inicialmente, a queda mais acentuada ocorreu no final de janeiro, coincidindo com movimentos no cenário político e monetário global. Segundo análises de corretoras especializadas, a nomeação de um novo presidente para o Federal Reserve (Fed) nos Estados Unidos levou o mercado a revisar expectativas sobre taxas de juros e liquidez. Além disso, a reação negativa de ativos tradicionalmente defensivos, como o ouro, ao anúncio, foi interpretada como um sinal de política monetária potencialmente mais restritiva, impactando ativos de risco.
Comparativo Recente (Fim de Janeiro):
- Bitcoin (BTC): Queda superior a 10% no mês, negociando abaixo de US$ 80 mil.
- Ouro: Correção brusca de 11% em um único dia após alta consistente.
A Percepção como Ativo de Risco vs. Ativo Defensivo
Entretanto, a parte mais reveladora deste movimento é a diferença de comportamento e percepção entre os ativos. Enquanto o ouro subiu por várias sessões seguidas, impulsionado por uma busca por proteção (safe-haven), o Bitcoin não conseguiu acompanhar essa valorização. Por outro lado, quando o metal precioso sofreu uma forte realização de lucros, a criptomoeda passou a cair ainda mais, aprofundando sua correção.
Para Karim Nabil, analista da gestora 21Shares, este comportamento reflete uma diferença fundamental.
“A chamada ‘desdolarização’ está aparecendo primeiro no ouro, não no Bitcoin, porque o choque dominante agora é geopolítico e fiscal, e não apenas monetário. Em momentos de crise, o capital historicamente corre primeiro para o ouro.”
Na prática, isso significa que, perante a incerteza, investidores tendem a vender ativos mais líquidos e voláteis, categoria na qual o Bitcoin ainda se enquadra, negociando-o em conjunto com ações.
Fatores que Diferem a Percepção do Mercado
- Histórico e Confiança: O ouro carrega séculos de percepção como reserva de valor e segurança.
- Maturidade do Mercado: O Bitcoin, apesar dos avanços, ainda é visto com maior especulação.
- Liquidez em Momentos de Estresse: Ativos de alta liquidez são os primeiros a serem vendidos em pânico.
Existe uma Correlação Efetiva Entre Ouro e Bitcoin?
Da mesma forma, a tese de que uma alta no ouro poderia “puxar” o Bitcoin para cima posteriormente é questionada por especialistas. David Duong, chefe de pesquisa da Coinbase, argumenta que não há evidência estatística consistente de uma relação previsível entre os dois.
“A ideia de uma rotação automática do ouro para o Bitcoin é fraca. Quando testamos diferentes janelas de tempo, o relacionamento não se sustenta de forma consistente”.
A investidora Cathie Wood também destacou que, desde 2020, a correlação entre os preços tem sido muito baixa, em torno de 0.14, indicando movimentos largamente independentes.
O Que Pode Destravar uma Recuperação Sustentável?
Portanto, apesar do cenário desafiador no curto prazo, analistas apontam que os fundamentos de longo prazo para a criptomoeda permanecem. A recuperação, no entanto, está condicionada a uma mudança no ambiente macroeconômico e na percepção de risco. Consequentemente, especialistas listam alguns fatores-chave que poderiam reacender o otimismo:
- Melhora na Liquidez Global: Um ambiente com mais dinheiro em circulação beneficia ativos de risco.
- Redução das Taxas de Juros: Diminui o custo de oportunidade de se investir em ativos não produtivos.
- Avanços Regulatórios Claros: Especialmente nos Estados Unidos, trazendo mais segurança institucional.
- Retomada do Apetite por Risco: Um sentimento geral mais positivo nos mercados financeiros.
Em resumo, enquanto o Bitcoin luta para encontrar um piso estável após quedas significativas, sua jornada para ser reconhecido como um ativo defensivo ao lado do ouro parece ainda longa. A mudança desta narrativa depende de uma combinação complexa de fatores macroeconômicos, regulatórios e, principalmente, de uma evolução na psicologia do investidor global.