O Fim do Ciclo Clássico do Halving

Para começar, a narrativa tradicional do Bitcoin sempre esteve atrelada ao evento do “halving”. Inicialmente, este mecanismo, que reduz pela metade a recompensa aos mineradores a cada quatro anos, costumava ditar ciclos de três anos de alta seguidos por um de forte correção. Entretanto, o último ciclo se mostrou diferente. Conforme dados de mercado, a moeda digital subiu por dois anos, atingiu seu ápice em outubro de 2025, mas despencou no quarto trimestre, fechando o ano em queda de 6% e prolongando as perdas em 2026.

“O maior perigo agora é tentar ler o bitcoin pelo passado. Toda a estrutura dessa queda está bem diferente dos ciclos de 2022 e 2018”, afirma Vinicius Bazan, CEO da consultoria Underblock.

Especialista do Mercado Cripto

Fatores que Impulsionam a Queda Atual

Além do rompimento do ciclo, múltiplos fatores convergem para a pressão de venda. Primeiramente, um “flash crash” em outubro liquidou US$ 19 bilhões em posições no mercado de futuros, criando um ponto de virada. Por outro lado, os ETFs (Fundos Negociados em Bolsa) de Bitcoin, que antes absorviam ofertas, agora registram saídas massivas de capital em 2026.

  • Liquidações no Mercado de Futuros: Evento de alta volatilidade que desencadeou a tendência de baixa.
  • Saídas nos ETFs Institucionais: Sinal de possível redução do apetite de risco entre grandes players.
  • Vendas de “Baleias”: Grandes detentores históricos reduziram suas posições no ano passado.
  • Aversão a Risco Geral: Sentimento de mercado afeta ativos tecnológicos e especulativos como um todo.

Riscos Novos e Preocupações Persistentes

No entanto, a queda atual não repete os motivos de crises passadas, como o colapso de projetos específicos. Desta vez, surgem preocupações estruturais. Um especialista anônimo citou ao Valor que o desempenho do setor de tecnologia, exceto IA, está influenciando as criptomoedas. Da mesma forma, o investidor Michael Burry, famoso por prever a crise de 2008, alertou para o risco de contágio e questionou a tese do “ouro digital”.

Queda Acumulada desde a Máxima (2025): ~50%

Dados consolidados do mercado

Ameaças de longo prazo também ganham espaço. A possibilidade de a computação quântica um dia quebrar a criptografia da rede é um risco conhecido, mas que ressurge no debate. “Alguns investidores resolveram vender por causa disso? Claro, é possível”, pondera Fernando Ulrich, da OranjeBTC.

Impacto no Mercado Tradicional e Perspectivas

Consequentemente, a correlação com o mercado tradicional se intensifica. A maior institucionalização do Bitcoin, através de ETFs como o da BlackRock (com US$ 64,8 bi em ativos), significa que quedas bruscas podem afetar outras partes do sistema. Paula Zogbi, da Nomad, explica que liquidações forçadas podem obrigar instituições a vender outros ativos voláteis para cobrir perdas, espalhando o sentimento negativo.

Portanto, o cenário atual é de incerteza e quebra de paradigmas. Apesar dos temores, alguns sinais de resiliência são observados, como a custódia de Bitcoin nos ETFs que ainda não recuou 10%. Em resumo, o mercado aprende que, mesmo institucionalizado, o Bitcoin permanece um ativo de volatilidade extrema, cujos movimentos futuros podem não mais seguir os mapas antigos.