A Nova Composição do Gasto Doméstico
Para começar, a renda real do brasileiro cresceu a uma média modesta de 1,7% ao ano nas últimas duas décadas. Entretanto, durante esse mesmo período, uma série de serviços antes considerados supérfluos ou inacessíveis se tornaram essenciais. Inicialmente, celulares e internet se massificaram. Posteriormente, serviços de streaming, educação superior e até o pagamento de aluguel por uma fatia maior da população consumiram parte crescente da renda.
Consequentemente, a parcela destinada aos bens de consumo de giro rápido – como alimentos, bebidas e produtos de higiene e limpeza – encolheu. De acordo com dados da NielsenIQ Brasil, essa fatia caiu de 23,5% do orçamento doméstico em 2023 para 21,9% atualmente. A tendência, no entanto, é de aceleração dessa queda.
Os Dois Fenômenos que Estão Mudando Tudo
Portanto, a atenção se volta para dois novos itens que já estão presentes em pelo menos um em cada quatro lares do país: as chamadas canetas emagrecedoras e as apostas esportivas online (bets). Pesquisas qualitativas inéditas da NielsenIQ, com base em um painel de mais de 8.000 domicílios, revelam números impactantes:
- Apostas Online: Presentes em 26% dos lares brasileiros, com maior prevalência nas classes D e E.
- Canetas Emagrecedoras: Encontram-se entre 25% e 30% dos lares, incluindo versões originais, genéricas ou manipuladas.
Da mesma forma, o diretor de insights da NielsenIQ Brasil, Gabriel Fagundes, destaca que o impacto desses produtos no consumo deve crescer. “As canetas emagrecedoras são produtos consumidos pelas classes mais altas, mas o seu uso deve se popularizar à medida que o preço se torna mais acessível”, afirma.
Impacto Direto no Comportamento do Consumidor
No entanto, o efeito vai além de uma simples substituição de gastos. Por um lado, as apostas são vistas por parte da população não como entretenimento, mas como uma possibilidade real de renda extra. “O consumidor fala claramente que, para manter um nível de apostas diário, deixa de comprar alimentos e bebidas”, explica Fagundes.
Por outro lado, o tratamento com medicamentos como o Mounjaro pode custar a partir de R$ 1.400 mensais, um valor expressivo que necessariamente desloca outros consumos. A perspectiva de queda de patentes e a entrada de genéricos nacionais, contudo, devem popularizar ainda mais esses tratamentos.
Mudança Chave no Varejo (Black Friday): Três dos cinco itens mais vendidos nas farmácias foram canetas emagrecedoras.
Um Consumidor Mais Complexo e Estratégico
Além disso, é preciso considerar um cenário macroeconômico desafiador. Só em 2025, o preço dos alimentos subiu 12%, enquanto o volume comprado recuou 0,6%. Ou seja, o brasileiro gasta mais para levar menos para casa. Em resposta, ele adotou um comportamento de consumo descrito como um “verdadeiro malabarismo”.
- Diversificação de Pontos de Venda: Compra em farmácias, atacarejos e mercados menores, conforme a conveniência e o preço.
- Estratégia de Marcas: Opta por marcas mais baratas em itens básicos (arroz, feijão, sabão) para poder comprar itens de indulgência ou cuidado pessoal mais caros.
- Preferência por Embalagens Menores: Mesmo sabendo que o custo-benefício é pior, escolhe embalagens de menor desembolso imediato para fechar a conta no dia.
Portanto, o que se observa é um aumento do consumo tanto de marcas premium quanto das de baixo preço, em detrimento das opções de preço médio. “Não existe mais um movimento linear”, conclui Fagundes.
O Papel da Inclusão Financeira
Finalmente, essa transformação foi possibilitada por uma maior inclusão financeira da população. A proporção de brasileiros com conta em instituição financeira saltou de 56% em 2011 para 86,4% em 2024. Este acesso permitiu financiar a compra de bens duráveis e, agora, participar de novos mercados, sejam eles de saúde ou de apostas. Em resumo, o orçamento doméstico brasileiro nunca foi tão disputado e complexo, refletindo as novas prioridades e os novos desafios econômicos da população.