O Primeiro Chatbot e o Apego Emocional Precoce
Inicialmente, a ideia de conversar com uma máquina para buscar conforto emocional parece um fenômeno contemporâneo. No entanto, na década de 1960, o cientista Joseph Weizenbaum criou o Eliza, considerado o primeiro chatbot conhecido. Este programa, rodando em um caríssimo computador IBM 7094, simulava uma conversa terapêutica reformulando as frases do usuário em perguntas.
“Por mais inteligentes que as máquinas possam vir a ser, há certos atos de pensamento que devem ser tentados apenas por seres humanos.”
Joseph Weizenbaum, em “Computer Power and Human Reason” (1976)
Para começar, Weizenbaum ficou surpreso quando sua própria secretária pediu privacidade para conversar com o Eliza. Da mesma forma, ele se espantou com pesquisadores que já previam que máquinas poderiam oferecer terapia real em hospitais. Este episódio histórico demonstra como a tendência de desenvolver apego emocional por sistemas automatizados é um padrão antigo, não uma criação do século XXI.
A Questão Perene: Máquinas Podem Pensar?
Em 1950, Alan Turing publicou seu artigo seminal “Computing Machinery and Intelligence“, lançando a pergunta que ainda ressoa: as máquinas podem pensar?. Entretanto, Turing já antecipava críticas filosóficas e teológicas de sua época. Ele reuniu objeções que iam desde a ideia de que pensar é função de uma alma imortal até o argumento de que apenas uma criação genuína, como um soneto escrito a partir de emoções sentidas, equivaleria ao cérebro humano.
Conforme explica o pesquisador Bernardo Gonçalves, do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), a controvérsia sobre a linguagem começou cedo. “O Turing já tinha sido exposto como uma pessoa que estimulava o uso de certos termos que outros eram contra, como cérebro eletrônico ou se referir à capacidade de armazenamento como memória”, afirma Gonçalves. Esta tensão levou, em 1956, à definição do campo na Conferência de Dartmouth como: “máquinas que se comportam de tal forma que, se fosse um humano, seria dito que são inteligentes”.
- Objeção Teológica (anos 1950): Pensar é função da alma humana.
- Objeção Filosófica (anos 1950): A máquina precisaria criar arte genuína.
- Crítica Moderna (Karen Hao): O antropomorfismo serve para evitar responsabilidade legal.
O Debate Entre Turing e Hartree: Auxiliar ou Substituir?
Enquanto Turing especulava sobre um futuro filosófico das máquinas, outros cientistas mantinham os pés no chão. Douglas Hartree, um dos principais especialistas em computação do Reino Unido no pós-guerra, publicou um artigo na revista Nature em 1946 fazendo um alerta. Ele argumentava que termos como “cérebro eletrônico” eram enganosos e atribuíam capacidades que as máquinas não possuíam.
Posição de Hartree: A computação deve ampliar o raciocínio humano, não substituí-lo.
No entanto, Hartree ia além. Ele temia que superestimar a razão das máquinas e desprezar a humana pudesse abrir caminho para formas de autoritarismo, um risco político fresco após a Segunda Guerra Mundial. Portanto, este debate histórico entre visão expansionista (Turing) e visão utilitária cautelosa (Hartree) espelha perfeitamente a polarização atual entre entusiastas e céticos da IA.
Padrões Cíclicos e o Deslocamento de Poder
Consequentemente, analisar a história revela ciclos repetitivos. Bernardo Gonçalves destaca que as controvérsias são, no fundo, sobre poder. “Por que temos controvérsia? Essa analogia com o humano, no fundo, é uma expansão do espaço da máquina na sociedade, que vai impactar no espaço do humano. Por exemplo, no que é um posto de trabalho”, explica. A própria palavra “computador” designava, nos anos 1940, pessoas (frequentemente mulheres) que realizavam cálculos complexos – uma profissão extinta pela automação.
Além disso, os ciclos de “inverno da IA” seguem um roteiro conhecido. Nos anos 1970, um relatório crítico no Reino Unido desacelerou investimentos após promessas não cumpridas. Hoje, conforme aponta Gonçalves, o ciclo se repete, mas em uma escala amplificada pelo capital financeiro global. “A polarização é tão forte que parece que ou esses sistemas vão logo se transformar em superinteligências e tomar o poder, ou são burros, estúpidos, meros papagaios estocásticos. Mas, na verdade, a área segue se desenvolvendo”, pondera.
- Ciclo de Hype: Promessas ambiciosas atraem atenção e investimento.
- Antropomorfização: Uso de linguagem humana (aprender, criar, pensar) para descrever máquinas.
- Debate Ético/Social: Medo de substituição, questões sobre autenticidade e poder.
- Correção ou “Inverno”: Ceticismo cresce quando resultados não acompanham as promessas.
- Renovação: Avanços técnicos concretos reacendem o ciclo.
As Lições que o Passado Oferece ao Presente
Em resumo, as previsões e os dilemas de 70 anos atrás não apenas se tornaram realidade, como fornecem um mapa para navegar o presente. A tendência de humanizar a tecnologia, o medo da substituição laboral e as disputas sobre a linguagem adequada são características intrínsecas do desenvolvimento da inteligência artificial, não anomalias passageiras. Portanto, entender essa longa história é a chave para engajar nos debates atuais com mais profundidade e menos ingenuidade, reconhecendo que as verdadeiras questões giram em torno do poder, da economia e do lugar do humano em um mundo cada vez mais automatizado.