O “Utopismo” que Paralisa o Desenvolvimento

Primeiramente, Robinson identificou um fenômeno que ele classifica como “utopismo”. Este conceito representa um desequilíbrio crônico entre o que é prometido pelo Estado e o que é realisticamente entregue à população. “O Estado promete fornecer serviços e direitos às pessoas, o que não consegue cumprir. Ele quer, ele espera, mas na realidade é utópico”, explicou o economista durante o Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe, na Cidade do Panamá.

Consequentemente, essa lacuna entre ideal e real alimenta um sistema de clientelismo político, onde soluções para problemas públicos são frequentemente mediadas por relações personalizadas e favores, em vez de instituições fortes e impessoais. O resultado prático é uma estagnação econômica visível: a renda per capita média da região permanece em cerca de 20% do nível dos Estados Unidos, posição mantida nos últimos 35 anos.

A Força Surpreendente da Economia Informal

Por outro lado, Robinson propõe uma visão inovadora sobre um dos maiores desafios regionais: a informalidade. Tradicionalmente vista como uma “perversão” do sistema, o economista a enxerga como uma manifestação de criatividade e resiliência. “É a realidade junto com o ideal. A realidade é o setor informal, e o ideal é o setor formal. E aqui na América Latina eles podem estar lado a lado”, afirmou.

Paradoxo Latino-Americano (Visão de James Robinson):

  • Utopismo Estatal: Promessas políticas que superam a capacidade de entrega.
  • Clientelismo: Sistema de troca de favores que substitui instituições sólidas.
  • Economia Informal Criativa: Setor visto não como fraude, mas como adaptação realista.
  • Coexistência Social: Capacidade notável de integrar grandes fluxos migratórios.
Análise baseada na palestra no Fórum Econômico América Latina e Caribe.

Uma Lição de Coexistência para o Mundo

No entanto, o aspecto mais elogiado por Robinson foi a extraordinária capacidade latino-americana de coexistência social. Ele contrastou a experiência da região com a de outras potências ao lidar com crises migratórias. Enquanto a chegada de aproximadamente um milhão de refugiados sírios à Europa alimentou movimentos políticos anti-imigração, a América Latina, mais pobre, absorveu cerca de 3 milhões de refugiados venezuelanos – principalmente na Colômbia e no Brasil – com muito menos conflitos sociais.

Além disso, o economista destacou que esses imigrantes receberam assistência social e oportunidades de integração. “Isso mostra a capacidade dos latinos de coexistir, de se respeitar, de se tolerar e de resolver os problemas uns dos outros”, afirmou. Esta realidade contrasta fortemente com a postura dos Estados Unidos, que, com meio milhão de venezuelanos, vive um intenso movimento de expulsão de imigrantes.

Brasil: O País do Futuro Entre Acertos e Erros

Finalmente, Robinson dirigiu um olhar específico ao Brasil, resgatando a famosa e muitas vezes irônica frase sobre o país ser “o país do futuro”. Para o Nobel, a afirmação mantém seu valor. “É o país do futuro mesmo. Vocês conquistarão muitas coisas, mas para fazer essas coisas, às vezes, a gente erra”, declarou, reconhecendo tanto o potencial quanto os percalços do caminho de desenvolvimento.

Portanto, a análise de James Robinson pinta um retrato complexo. A América Latina enfrenta armadilhas institucionais sérias, como o utopismo e o clientelismo, que travam seu progresso econômico. Entretanto, a mesma região dá uma lição ao mundo em termos de coesão social, tolerância e capacidade prática de integração, mostrando que seu maior ativo pode não estar nos indicadores econômicos tradicionais, mas no tecido social que consegue unir realidade e ideal de forma única.


“Há uma grande capacidade de a América Latina, que é um continente mais pobre, criar oportunidade e segurança social para todas essas pessoas, absorver esse contingente.”

James Robinson, Prêmio Nobel de Economia 2024