O Primeiro Passo: Isolamento Total do Aparelho
Inicialmente, assim que um dispositivo é apreendido, ele é imediatamente colocado em um recipiente especial. Este ato não é meramente protocolar; trata-se da aplicação prática de um conceito científico conhecido como Gaiola de Faraday. Para começar, essa “gaiola” – que pode ser uma bolsa ou caixa com revestimento metálico – bloqueia completamente todos os sinais eletromagnéticos externos, como Wi-Fi e redes de celular.
“O equipamento fica ligado, mas não consegue se comunicar com o Wi-Fi, com a antena da rede de celular. Não há contato com o mundo exterior, o que é o ideal”, explica um perito em segurança digital.
Consequentemente, essa medida é vital para evitar que o proprietário do aparelho consiga apagar dados remotamente, garantindo a integridade do material que será analisado.
As Ferramentas de Extração: Cellebrite e Greykey
Além disso, com o dispositivo devidamente isolado, os peritos partem para a fase de extração dos dados. Para isso, utilizam softwares especializados e de uso restrito, como o israelense Cellebrite UFED e o americano Greykey. Portanto, esses programas conseguem se conectar ao celular via cabo USB e tentar descobrir a senha de bloqueio da tela, permitindo o acesso a arquivos, mensagens e histórico.
Investimento em Tecnologia: A licença anual para uso dessas ferramentas pode custar cerca de US$ 50 mil (aproximadamente R$ 270 mil), um valor que reflete sua complexidade e eficácia.
No entanto, a técnica aplicada varia radicalmente dependendo do estado em que o aparelho se encontra:
- Aparelho com tela bloqueada: Usa-se a conexão por USB com ferramentas como Cellebrite e Greykey para tentar burlar a senha.
- Aparelho desligado ou danificado: Recorre-se à técnica de chip off, um procedimento invasivo de “força bruta”.
A Técnica do “Chip Off” e a Corrida Contra o Tempo
Por outro lado, quando o celular está desligado ou inacessível por meios convencionais, a perícia adota o chip off. Da mesma forma, esta técnica envolve desmontar fisicamente o aparelho para remover componentes críticos, como o chip de memória principal (NAND flash). Em seguida, esse chip é soldado a um adaptador especial e “lido” por outro equipamento, transferindo seu conteúdo binário para análise.
Entretanto, existe uma urgência inerente a todo o processo. Apesar de arquivos e mensagens permanecerem na memória, alguns registros temporários essenciais – como a chave criptográfica da senha da tela – podem se perder se o aparelho for reiniciado. Alguns smartphones modernos possuem até mecanismos de segurança que reiniciam o sistema automaticamente após um período bloqueado, justamente para dificultar esse tipo de extração.
Por Que a Pressa é Fundamental
Primeiramente, enquanto o celular está ligado e bloqueado, a senha fica armazenada em uma memória volátil de acesso rápido (RAM). Portanto, com ferramentas específicas, é possível fazer uma “imagem” dessa memória e tentar extrair a senha dali. Consequentemente, se o aparelho for desligado ou reiniciado, esse dado temporário é apagado permanentemente, tornando o desbloqueio muito mais difícil e demorado, exigindo ataques de força bruta direto à criptografia do chip.
O Futuro da Perícia Digital
Em resumo, a extração de dados de celulares é um campo de constante evolução, uma batalha silenciosa entre técnicas de investigação e medidas de segurança implementadas pelos fabricantes. Portanto, a perícia precisa se manter atualizada com tecnologias caras e procedimentos cada vez mais complexos. Para a justiça, cada byte recuperado pode significar a peça que faltava em um quebra-cabeça investigativo, tornando esse processo tecnológico uma ferramenta indispensável na aplicação da lei na era digital.