Primeiro Semestre: Ventos Globais e Alívio Monetário
Inicialmente, a perspectiva para o início de 2026 é positivamente influenciada pela dinâmica internacional. Conforme análises de instituições financeiras globais, a economia mundial deve manter uma trajetória de crescimento próximo a 3%, sustentada especialmente pela robusta atividade nos Estados Unidos. Para começar, os investimentos maciços em inteligência artificial e tecnologia continuam a ser um motor relevante de expansão do Produto Interno Bruto global.
Além disso, o fator mais crucial para o Brasil é o esperado ciclo de cortes na taxa de juros pelo Federal Reserve (Fed), o banco central americano. Essa movimentação tende a beneficiar ativos de mercados emergentes, como o brasileiro. O real se beneficia do elevado diferencial de juros, oferecendo uma relação atrativa entre retorno e risco. Paralelamente, a expectativa é que o Banco Central brasileiro inicie seu próprio ciclo moderado de cortes na taxa Selic no primeiro trimestre, conforme as projeções de mercado consolidam.
Projeções-Chave para 2026:
Crescimento do PIB: 1,8% (mediana do Boletim Focus)
Taxa Selic ao fim do ano: ~12,25%
Dívida Pública/PIB: 83,8%
Oportunidades e Otimismo Inicial nos Mercados
Nesse contexto, o mercado de ações surge como a classe de ativos mais promissora para a primeira metade do ano. Dois pilares sustentam este otimismo: avaliações consideradas atrativas e uma expectativa de crescimento robusto nos lucros das empresas, que pode chegar a 18%. A combinação entre a queda dos juros domésticos e o fluxo de capital estrangeiro em busca de retorno em mercados emergentes deve catalisar essa valorização.
Por outro lado, setores sensíveis ao crédito ainda sentirão os efeitos defasados da longa fase de juros altos. A inadimplência, especialmente entre pessoas físicas, permanece em patamares elevados. O comprometimento da renda das famílias com dívidas atingiu um recorde histórico de 28,5% em setembro de 2025, segundo dados do Banco Central. Portanto, segmentos como varejo de bens duráveis e construção civil devem enfrentar pressão contínua no primeiro semestre.
Segundo Semestre: A Sombra das Eleições e do Risco Fiscal
Entretanto, o cenário muda radicalmente a partir do meio do ano. A disputa eleitoral presidencial e a pressão fiscal retomam o protagonismo, introduzindo um alto grau de volatilidade. As eleições de 2026 serão decisivas não apenas para definir o próximo governo, mas para sinalizar se o país enfrentará uma agenda crível de ajuste estrutural das contas públicas ou se prolongará a trajetória de deterioração fiscal.
O risco central é conhecido como dominância fiscal, uma situação em que o nível elevado da dívida pública compromete a eficácia da política monetária, forçando o Banco Central a manter juros cronicamente altos para compensar o descontrole dos gastos governamentais. Casos recentes na Turquia e na Argentina ilustram os perigos desse cenário, que pode resultar em inflação persistentemente alta e perda de confiança dos investidores.
“O mercado vai tentar entender se a eleição destrava um plano fiscal mais crível para o ano que vem. Se isso acontecer, o potencial de alta para a bolsa é muito grande.”
Analista de instituição financeira global
Os Desafios Estruturais que Aguardam o Próximo Governo
Consequentemente, a agenda para 2027 já se impõe como um desafio inadiável. Especialistas apontam que o atual arcabouço fiscal mostra sinais de esgotamento, pois as despesas obrigatórias – como reajustes do salário mínimo e benefícios sociais vinculados – crescem em um ritmo superior ao limite estabelecido. Sem reformas que controlem o crescimento vegetativo desses gastos, o país pode entrar em um ciclo vicioso.
- Revisão da regra do salário mínimo: O reajuste real pressiona as contas da previdência e assistência social.
- Desvinculação de benefícios: Necessidade de desindexar gastos sociais e previdenciários para ganhar flexibilidade orçamentária.
- Reformas de gastos obrigatórios: Medias estruturais para reduzir o crescimento automático das despesas públicas.
Conclusão: Um Ano de Decisões Cruciais
Em resumo, 2026 será um ano de contrastes agudos para a economia brasileira. O primeiro semestre oferece uma janela de oportunidade, aproveitando ventos globais favoráveis e o alívio monetário inicial. No entanto, o segundo semestre será dominado pela incerteza política e pelo teste decisivo da vontade de ajuste fiscal. A capacidade do próximo governo de apresentar um plano crível para as contas públicas determinará se o país evitará a armadilha da dominância fiscal ou se seguirá um caminho de instabilidade e juros permanentemente elevados. A volatilidade será a marca registrada deste período, exigindo dos investidores uma gestão de risco ainda mais cautelosa.