Um debate crucial sobre transparência e autorregulação está colocando em xeque os pilares do poder judiciário no Brasil. Enquanto o Supremo Tribunal Federal atua para fiscalizar outros poderes, parte de seus próprios ministros resiste ferozmente à criação de um código de conduta interno, levantando questões profundas sobre igualdade perante a lei.
O Paradoxo da Fiscalização: Cobrar dos Outros, Isentar a Si
O Supremo Tribunal Federal tem sido incisivo e diligente em seu papel de cobrar transparência e correção absoluta de parlamentares, especialmente no uso das emendas orçamentárias. Essa atuação, liderada por ministros como Flávio Dino, é amplamente vista como cumprimento do dever constitucional da corte. No entanto, um contraditório notável surge quando a lupa da regulamentação é voltada para o próprio tribunal.
A simples proposta de criar um código de ética para magistrados do STF, nos moldes do existente na Alemanha, tem encontrado resistência explícita e implícita dentro do plenário. A justificativa apresentada por alguns é a de que a Constituição, o regimento interno e a moralidade individual seriam suficientes, tornando um manual desnecessário.
“O ambiente reativo no tribunal leva o presidente da corte a buscar alternativas externas, o que por si só deveria ser um sinal de alerta.”
— Análise Institucional
As Duas Frentes da Resistência
- Resistência Explícita: Ministros que publicamente defendem que cada juiz é capaz de se autorregular e que um código é um instrumento redundante.
- Resistência Implícita: Aqueles que, no privado, concordam com a tese da desnecessidade, mas optam pela omissão no debate público, evitando se posicionar.
A Proposta de Fachin e a Busca por uma Solução Externa
Diante da reação contrária interna, o presidente Edson Fachin tem considerado uma rota alternativa: instituir o código de conduta através do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Essa manobra, longe de ser uma solução técnica, é um termômetro político significativo. Ela indica que a pressão por transparência precisa vir de fora, pois o autorregramento interno se mostra ineficaz ou indesejado.
Essa situação levanta uma questão fundamental: por que um órgão que se vê no direito de forjar o caráter civilizatório da sociedade recua ao ter que definir parâmetros claros para seu próprio comportamento?
Foco do Código Proposto: Aplicar a “luz do dia” sobre a conduta dos magistrados, com regras claras para relacionamentos, recebimentos e interações sociais.
Perguntas que Não Querem Calar
- Que mal fariam regras claras e transparentes para todos, incluindo as “excelências”?
- Os recorrentes pedidos de impeachment de ministros não seriam, em parte, alimentados pela desconfiança gerada por essa falta de padrão ético objetivo?
- Por fim, a pergunta mais direta: do que temem os ministros ao se oporem a um manual que apenas explicitaria o que já deveria ser prática?
Consequências: Desconfiança e Erosão da Legitimidade
A frouxidão percebida em quesitos como relacionamentos pessoais, recebimento de vantagens e adulações, quando contrastada com a rigidez exigida de outros, cria um terreno fértil para a desconfiança pública. A adaptação do conceito de ética a conveniências pessoais é um caminho perigoso para qualquer instituição, especialmente para uma corte suprema.
A recusa em adotar um código não é um debate meramente procedural. É uma questão de coerência e liderança moral. Uma instituição que dita as regras do jogo democrático não pode se eximir de jogar com as mesmas regras de transparência que impõe.
Conclusão: A Transparência como Único Caminho
A discussão sobre um código de ética no STF vai muito além de um manual de procedimentos. Ela toca no cerne da credibilidade da mais alta corte do país. A resistência a regras claras, paradoxalmente vinda de quem as aplica, serve apenas para alimentar ciclos de desconfiança e questionamentos sobre a isonomia perante a lei.
A luz do dia é o melhor antídoto contra a sombra da dúvida. Se o temor é a exposição, a solução não é se esconder atrás de formalismos, mas abraçar a transparência como princípio irrenunciável de uma democracia sólida.
Análise baseada em debates institucionais de dezembro de 2025.