A Fronteira Tecnológica Inalcançável
Primeiramente, pesquisadores da Universidade RMIT do Vietnã desenvolveram uma métrica para medir a produtividade na indústria eletrônica. Eles compararam a eficiência das empresas locais com a “fronteira tecnológica” global, definida pelas empresas estrangeiras mais avançadas. O resultado foi revelador: as empresas vietnamitas operam, em média, a apenas 64% do potencial máximo.
Gap de Produtividade (2011-2020): Empresas vietnamitas produzem 64 unidades contra 100 da líder global com os mesmos insumos.
Além disso, este índice permaneceu praticamente estagnado por quase uma década, entre 2011 e 2020. Isso indica que o fluxo contínuo de Investimento Estrangeiro Direto (IED) não se traduziu em ganhos significativos de know-how para a indústria doméstica.
O Paradoxo do Investimento Estrangeiro
Para começar, os dados mostram uma dependência extrema. O IED é responsável por impressionantes 98% das exportações de eletrônicos do Vietnã. No entanto, essa dominância tem um lado negativo. Conforme explicou o professor Nguyen Chau Trinh, uma presença estrangeira muito forte pode intensificar a concorrência de forma prejudicial.
“Uma presença dominante de IED na cadeia de valor pode excluir empresas nacionais ou confiná-las a segmentos de baixo valor agregado, com oportunidades limitadas de atualização tecnológica.”
Nguyen Chau Trinh, Professor de Economia da RMIT
Portanto, em vez de elevar o parque industrial local, o risco é que o Vietnã fique permanentemente preso no estágio de montagem de baixo valor, sem desenvolver capacidades de pesquisa, desenvolvimento e design.
Redes Fechadas e a Falta de “Spillover”
Inicialmente, é crucial entender a origem do problema. Os principais investidores, como Japão e Coreia do Sul, frequentemente operam o que os pesquisadores chamam de redes fechadas. Eles trazem seus próprios fornecedores estrangeiros e limitam drasticamente as conexões com a indústria local. Da mesma forma, as tecnologias de núcleo e os projetos mais avançados são rigidamente protegidos e mantidos nas sedes no exterior.
- Investidores Japoneses e Sul-Coreanos: Tendem a operar redes fechadas, trazendo sua própria cadeia de suprimentos.
- Investidores Chineses e Taiwaneses: Mostram-se mais dispostos a buscar fornecedores locais e oferecer assistência técnica.
- Falta de Joint Ventures Obrigatórias: Diferente do modelo chinês histórico, o Vietnã não força parcerias, enfraquecendo os canais de transferência de tecnologia.
Consequentemente, os canais tradicionais para que o conhecimento “vaze” das multinacionais para as empresas domésticas — as chamadas externalidades — ficam bloqueados.
Caminhos para uma Evolução Tecnológica
No entanto, os pesquisadores apontam saídas estratégicas. Eles recomendam que o governo vietnamita adote políticas mais proativas para fomentar a integração. A promoção de joint ventures é vista como um mecanismo fundamental.
- Incentivos Fiscais e Regulatórios: Oferecer benefícios para empresas estrangeiras que adquirirem produtos e serviços no mercado interno.
- Programas de Assistência Técnica: Criar mecanismos que obriguem ou incentivem grandes investidores a ajudar fornecedores locais a se modernizarem.
- Foco em Investidores Alternativos: Atrair capital de regiões mais abertas à integração local, como Taiwan e Sudeste Asiático.
Em resumo, o caso do Vietnã serve como um alerta para nações em desenvolvimento. Atrair fábricas globais é apenas o primeiro passo. A verdadeira transformação econômica exige políticas inteligentes que garantam que o investimento estrangeiro seja uma ponte para a inovação doméstica, e não um muro que a contenha.