Uma Sequência de Surpresas que se Encerra

Para começar, é crucial contextualizar essa acurácia. Caso confirmada, a performance de 2025 interrompe uma sequência notável observada nos anos anteriores. Desde 2020, o PIB brasileiro consistentemente superou as expectativas iniciais dos especialistas. Primeiramente, em 2020, a queda foi de 3,3%, muito menor que os 6% previstos. Posteriormente, de 2021 a 2024, o crescimento real superou as projeções iniciais em uma média significativa, variando entre 1,2 e 2,5 pontos percentuais.

Desvio das Projeções do PIB (Real vs. Esperado):

  • 2020: Queda de 3,3% (esperava-se -6%) → +2,7 p.p.
  • 2021: Crescimento acima do esperado em +1,2 p.p.
  • 2022: Crescimento acima do esperado em +2,5 p.p.
  • 2023: Crescimento acima do esperado em +2,1 p.p.
  • 2024: Crescimento acima do esperado em +1,9 p.p.
  • 2025 (proj.): Crescimento de ~2,2% (esperava-se ~2%) → +0,2 p.p.
Fonte: Análise com base em dados de consenso de mercado e IBGE.

O Padrão Histórico e a Dificuldade de Prever

Entretanto, é importante notar que a tendência de superestimar o crescimento é mais comum no histórico brasileiro. Conforme análise técnica do Banco Central, entre 2006 e 2024, as projeções do mercado, em média, superestimaram o PIB em 0,5 ponto percentual. Esse valor sobe para 0,9 ponto percentual no período anterior à pandemia (2006-2019). Portanto, a sequência de subestimativas entre 2020 e 2024 foi, na verdade, uma inversão do padrão histórico.

Além disso, errar nas projeções é uma constante no campo da economia. A conjuntura política e econômica muda rapidamente, séries históricas são revisadas e os modelos econômicos são, por definição, simplificações da realidade complexa. Da mesma forma, premissas de cenários podem não se materializar, afetando diretamente os resultados finais.

O Motor das Surpresas Passadas: Gastos Públicos

Um fator-chave para entender as surpresas positivas do período 2020-2024 foi o comportamento dos gastos públicos. Inicialmente, tanto o governo federal quanto, sobretudo, os governos estaduais e municipais, apresentaram uma expansão de despesas acima do esperado. Esse “impulso fiscal” teve um impacto expressivo e positivo no crescimento econômico. Consequentemente, quando essa surpresa nos gastos se reduziu em 2025, a divergência entre o PIB projetado e o realizado também diminuiu drasticamente.

Sem essa expansão de gastos governamentais, possivelmente o PIB brasileiro teria crescido bem pouco no período.

Análise baseada em estimativas de impulso fiscal

Perspectivas e Desafios para 2026

Olhando para frente, as expectativas para 2026 já começam a se formar. Atualmente, as projeções apontam para um crescimento entre 1,5% e 2%. Essa desaceleração esperada em relação a 2025 decorre de dois motivos principais. Primeiramente, espera-se uma forte normalização no setor agropecuário, que após um crescimento excepcional em 2025, deve ter uma variação próxima de zero. Em segundo lugar, os efeitos contracionistas da política monetária ainda devem pesar na atividade econômica, mesmo com a trajetória de queda da taxa básica de juros.

No campo fiscal, a probabilidade de uma surpresa positiva significativa nos gastos do governo federal é considerada baixa. No entanto, os governos regionais, com caixa fortalecido em um ano eleitoral, podem ser uma fonte de impulso inesperado. Portanto, o cenário para o próximo ano sugere um crescimento mais moderado, com menor margem para grandes surpresas, a menos que novos fatores entrem em jogo.

Por Que Compreender os Erros é Fundamental

Finalmente, mais importante do que simplesmente acertar a previsão é compreender as razões por trás dos desvios. Essa análise permite refinar modelos, entender os verdadeiros motores da economia e formular políticas mais adequadas. Em resumo, a precisão das projeções para 2025 não é um sinal de estagnação, mas sim de um cenário econômico que se comportou de forma mais alinhada com as expectativas, interrompendo um ciclo atípico de otimismo superado pela realidade.