A Revolução da Interface Invisível
Para começar, uma das tendências mais impactantes é a chamada “interface invisível”. Inicialmente, a evolução tecnológica desmaterializou objetos físicos, transformando-os em software. Agora, o próximo passo é a desmaterialização do próprio aplicativo. Conforme analistas projetam, em vez de abrir diversos apps, os usuários resolverão tarefas complexas por meio de conversas com agentes de IA dentro de mensageiros como o WhatsApp.
Exemplo Prático: Solicitar um Pix por voz, pagar um boleto enviando uma foto ou acompanhar uma compra diretamente no chat.
Portanto, o centro de gravidade da experiência digital migra da navegação em menus para a intenção do usuário expressa naturalmente. Este movimento é impulsionado por três forças que convergem em 2026:
- Maturação da IA Generativa: Agentes capazes de executar tarefas complexas de forma autônoma.
- Universalização de Infraestruturas: A combinação onipresente do Pix e de plataformas de mensageria no Brasil.
- Validação Comercial Global: Modelos bem-sucedidos, como o superapp Alipay, que atende mais de 1 bilhão de usuários.
Soberania Digital e os Riscos da Dependência Tecnológica
Por outro lado, em um cenário macro, surge uma discussão geopolítica crucial. A corrida pela Inteligência Artificial, liderada pelos Estados Unidos com investimentos massivos em hardware e data centers, cria uma concentração de poder preocupante. Consequentemente, nações tornam-se vulneráveis a leis extraterritoriais e sanções, expondo dados estratégicos.
Diante disso, a busca por soberania digital – a capacidade de um Estado controlar seus ativos digitais – deixa de ser retórica. Países e blocos, como a União Europeia e o BRICS, já implementam estratégias para construir infraestruturas próprias, como cabos submarinos e nuvens regionais. Para o Brasil e o Sul Global, especialistas recomendam focar em três frentes estratégicas:
- Investir em infraestrutura de confiança, como data centers públicos.
- Dominar elos da cadeia de semicondutores, como design e empacotamento avançado.
- Implementar regulação ex-ante para quebrar a dependência de grandes plataformas.
O Protagonismo do Público 60+ e a Virada Fiscalizatória
Além das megatendências, mudanças demográficas e regulatórias moldarão o ecossistema. O público com 60 anos ou mais deve assumir o papel de protagonista no mercado mobile. Com a posse de smartphones se aproximando de 90% nas grandes cidades e a popularização de aparelhos 5G mais acessíveis, este grupo consolidará hábitos de consumo digital. A exigência, portanto, será por UX60+ – experiências de usuário projetadas como norma, e não como exceção.
Simultaneamente, 2026 marcará uma transição importante na regulação. A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) deve encerrar sua fase predominantemente educativa e iniciar um ciclo de atuação fiscalizatória mais assertivo e constante. Com um novo Conselho Diretor e expansão de recursos, a expectativa é de aumento na frequência de auditorias e no uso de mecanismos sancionatórios da LGPD, impactando diretamente a governança de dados em empresas e governos.
Outras Tendências-Chave para Observar
Da mesma forma, outros setores passarão por transformações significativas:
- Ecossistema de IA nas Organizações: Será crucial entender todas as camadas da IA, do hardware às bases de dados estruturadas, para se posicionar nas novas interfaces de consulta.
- Conectividade Satelital (D2D): Serviços de telefonia móvel via satélite para dispositivos comuns devem ganhar tração, exigindo modernização regulatória da Anatel.
- Crédito no Open Finance: A eleição do crédito como prioridade pelo Banco Central pode gerar benefícios sem precedentes, embora os desafios de implementação sejam grandes.
“A janela para decidir se você será dono da conversa ou apenas um item dentro dela está se fechando.”
Ernesto Haikewitsch, diretor executivo da Mazaltech Consultores
Em resumo, 2026 se configura como um ano de viradas concretas. A tecnologia conversacional se tornará operação em escala, a regulação sairá do papel para a fiscalização prática, e a inclusão digital de grupos antes periféricos redefinirá o centro do mercado. As organizações que tratarem essas tendências como centrais, e não como tópicos secundários, estarão melhor posicionadas para liderar a nova era digital.