O Descompasso Entre Vagas e Qualificação
Para começar, os números revelam um abismo preocupante. Inicialmente, o país se tornou o segundo no mundo em número de cursos de Medicina, com quase 500 escolas oferecendo mais de 50 mil vagas anuais. No entanto, conforme dados da Associação Médica Brasileira (AMB), apenas 27% dos médicos brasileiros completaram a residência médica. Portanto, a maioria atua apenas com o diploma de graduação.
Dados Críticos da Formação Médica (2024):
Vagas anuais de graduação: aproximadamente 50 mil
Vagas para o 1º ano de residência: aproximadamente 24 mil
Médicos sem registro de especialização: mais de 240 mil
O Gargalo da Residência e os Cursos “Alternativos”
Além disso, o acesso à residência médica, etapa considerada essencial, é extremamente restrito. A última edição do Exame Nacional de Residência (Enare) registrou 87 mil inscritos para apenas cerca de 6 mil vagas. Em algumas especialidades, como medicina esportiva, a concorrência chega a 59 candidatos por vaga.
Diante desse gargalo, cresce a procura por cursos de pós-graduação lato sensu. Entretanto, estes cursos não concedem o Registro de Qualificação de Especialista (RQE), têm baixa regulamentação e podem exigir uma carga mínima de apenas 360 horas, muitas vezes na modalidade a distância. Até 2024, existiam 2.148 cursos desse tipo ativos na área médica.
Os Riscos Concretos para a Saúde da População
Portanto, o custo dessa formação inadequada é medido em vidas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 3 milhões de mortes por ano no mundo poderiam ser evitadas com práticas médicas mais seguras. No Brasil, um relatório alarmante indica que cinco pessoas morrem a cada minuto devido a erros médicos, totalizando quase 55 mil pacientes por ano.
“Atuar sem a formação exigida expõe os pacientes a risco”, afirmou César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira.
César Eduardo Fernandes, Presidente da AMB
Da mesma forma, estudos internacionais, como os do Institute of Medicine dos EUA, apontam que a falta de conhecimento e experiência clínica é uma causa central de diagnósticos tardios e erros, aumentando o risco de complicações e óbitos.
Um Problema que Exige Solução Estrutural
Em resumo, o modelo atual criou um ciclo perigoso:
- Expansão desordenada das faculdades de Medicina.
- Falta de vagas em programas de residência de qualidade.
- Inundação do mercado por profissionais sem especialização reconhecida.
- Aumento do risco de eventos adversos e mortes evitáveis.
Consequentemente, especialistas defendem uma revisão urgente das políticas de formação médica. A solução passa necessariamente por equilibrar a oferta de vagas de graduação com a expansão planejada de programas de residência credenciados, garantindo que a quantidade de médicos formados seja sinônimo de qualidade no atendimento à população.