O coração de Niterói, tradicional ponto de encontro e principal polo de transporte da Região Metropolitana, tornou-se o epicentro de um grave problema de segurança pública. Dados recentes revelam que o Centro da cidade registrou os maiores índices de roubos de celulares e a transeuntes no primeiro semestre, com aumentos alarmantes que superam 15% em relação ao ano anterior, configurando um cenário de alerta para milhares de moradores e trabalhadores que circulam diariamente pela área.
Os Números que Revelam a Crise
Um levantamento detalhado aponta que o bairro do Centro concentrou 55 casos de roubo de celular e 134 roubos a transeunte apenas nos primeiros seis meses do ano. Esses números não são apenas os mais altos entre os 51 bairros de Niterói, mas também representam aumentos históricos de 19,6% e 15,5%, respectivamente, na comparação com o mesmo período do ano passado.
Roubos no Centro (1º Semestre): 55 celulares | 134 a transeuntes
O Relato de uma Vítima: Ameaça com Faca em Plena Luz do Dia
A estatística ganha rosto na história de Gabriel Santos, estudante de 22 anos. Em outubro de 2023, após uma manhã de aulas na Universidade Federal Fluminense (UFF), ele caminhava com um amigo pela Praça Juscelino Kubitschek, próximo ao movimentado Terminal João Goulart, quando foram surpreendidos.
“Com uma faca de churrasco, o criminoso ameaçou perfurar a barriga do meu amigo caso não entregássemos nossos celulares”, relata Gabriel. Após o roubo, os jovens correram até policiais próximos à estação das barcas, mas os aparelhos não foram recuperados. A experiência mudou seus hábitos: “Jamais achei aquele lugar perigoso… Agora opto por pegar um ônibus do campus até o terminal. Não vou dar sorte ao azar”.
Por Que o Centro se Tornou Alvo?
Especialistas apontam uma combinação perigosa de fatores que transforma a região em um campo fértil para a criminalidade.
1. Gigantesca Circulação de Pessoas
O Centro de Niterói é o principal hub de transportes da região. O Terminal João Goulart sozinho concentra mais de cem linhas de ônibus que atendem pelo menos 12 cidades, incluindo Rio de Janeiro, São Gonçalo, Maricá e municípios da Baixada Fluminense e Região dos Lagos. A administração do terminal estima um fluxo diário de 535 mil pessoas, número superior à própria população residente na cidade.
2. Concentração de Atividades
- Comércio e Serviços: Centro comercial tradicional atrai consumidores.
- Educação: Sede de campus universitários, como o Gragoatá da UFF.
- Transporte Intermunicipal: Ponto de partida de barcas e ônibus metropolitanos.
Carolina Grillo, professora de Sociologia da UFF, explica: “O fato de o local se tratar de um centro comercial, com grande circulação de pessoas, favorece os roubos de rua”. A multidão oferece anonimato aos criminosos e um amplo leque de vítimas em potencial.
“As iniciativas de revitalização do Centro pelo poder público aumentaram a circulação de pessoas no bairro, principalmente à noite e na orla. Isso acaba atraindo criminosos, principalmente atrás de celulares, que alimentam um ciclo criminoso de receptação e revenda de aparelhos.”
— Alberto Kopittke, consultor de Segurança Pública
As Medidas de Enfrentamento e o Desafio Contínuo
Diante do cenário crítico, a Prefeitura de Niterói tem implementado ações para tentar conter a onda de violência. Uma das principais estratégias é o cercamento eletrônico através de câmeras de monitoramento, visando inibir a ação de criminosos e auxiliar na identificação e prisão em flagrante.
Além disso, há relatos de um reforço no policiamento ostensivo em áreas críticas, como o entorno da estação das barcas e do Terminal João Goulart. No entanto, o desafio permanece imenso, dada a complexidade do fluxo populacional e a natureza oportunista dos crimes.
Conclusão: Um Alerta para Moradores e Visitantes
Os dados revelam uma realidade preocupante no Centro de Niterói. A combinação entre sua vitalidade econômica e funcional como polo de transporte metropolitano criou, paradoxalmente, condições ideais para a prática de roubos. Enquanto o poder público busca soluções estruturais, a população precisa redobrar a atenção, evitando a exposição desnecessária de celulares em vias públicas e preferindo caminhar por rotas mais movimentadas e iluminadas.
A segurança em espaços urbanos de grande confluência é um desafio complexo, que exige não apenas repressão, mas também políticas integradas de urbanismo, iluminação e ocupação do espaço público para que a revitalização não seja acompanhada pelo aumento da sensação de insegurança.
Atualizado em dezembro de 2025.